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Lei Delas

Quando agosto acaba, a violência não acaba com ele

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Foto: Golib

Já passamos da metade do caminho entre o Agosto Lilás e o Setembro Amarelo. E talvez esse seja justamente um bom momento para falar sobre os dois.

Em agosto, falamos muito sobre violência contra a mulher. Vimos campanhas, palestras, ações de conscientização, números, canais de denúncia e a importância da rede de proteção. É necessário. Eu diria, inclusive, indispensável.

Só que agosto acabou.

E as mulheres que vivem situações de violência continuaram vivendo suas vidas no dia seguinte.

Agora estamos em setembro e o assunto muda. Falamos sobre saúde mental, sobre prevenção ao suicídio, sobre a importância de pedir ajuda, de perceber sinais e de acolher quem não está bem.

Mas será mesmo que o assunto mudou tanto assim?

Tenho pensado muito sobre isso.

Quando uma mulher passa anos ouvindo que não presta, que ninguém vai querer ficar com ela, que não consegue fazer nada sozinha, isso fica em algum lugar. Quando é afastada dos amigos, da família, quando passa a ter medo de falar, de vestir determinada roupa, de chegar alguns minutos mais tarde, de contrariar, tudo isso vai deixando marcas.

E não estou falando apenas da mulher que ainda está dentro de uma relação violenta.

Estou falando também daquela que conseguiu sair.

Porque existe uma ideia muito simplista de que basta romper o relacionamento e pronto. Como se sair pela porta encerrasse tudo o que aconteceu dentro daquela casa. Não encerra.

Tem mulher que vai embora e leva junto o medo. Leva a culpa. Leva a autoestima destruída. Leva noites sem dormir. Leva a dificuldade de confiar nas pessoas e, muitas vezes, de confiar nela mesma.

A Lei Maria da Penha foi fundamental ao nos fazer compreender que violência doméstica não é somente agressão física. Existe violência psicológica, moral, sexual e patrimonial. E reconhecer essas outras formas de violência também significa entender que nem toda vítima vai chegar à rede de proteção com uma marca que possa ser fotografada.

Algumas chegam completamente feridas sem ter um único roxo no corpo.

É aí que agosto encontra setembro.

Não dá para falar seriamente sobre saúde mental sem olhar para aquilo que também adoece as pessoas. E não dá para falar de enfrentamento à violência contra a mulher sem discutir o que essa violência faz com a saúde emocional de quem a vive.

Também precisamos tomar cuidado com a facilidade com que repetimos “peça ajuda”.

Pedir ajuda para quem?

Essa mulher será ouvida quando pedir?

Será acolhida ou questionada?

Vão acreditar nela ou perguntar por que não saiu antes?

Porque, antes de ensinar alguém a pedir ajuda, precisamos construir lugares seguros para que essa ajuda seja pedida.

Talvez essa seja uma reflexão necessária para setembro: parar de tratar nossas campanhas como gavetas. Em agosto, violência contra a mulher. Em setembro, saúde mental. Em outubro, outro assunto.

A vida não funciona assim.

Uma coisa atravessa a outra.

Estamos em 10 de setembro. Os posts lilases já diminuíram, os eventos de agosto terminaram e boa parte das instituições seguiu o calendário. Mas aquela mulher que começou agosto tentando reunir coragem para denunciar pode estar, hoje, ainda tentando.

E talvez ela nem precise ouvir uma grande frase.

Talvez precise apenas encontrar alguém que diga: eu acredito em você. Vamos procurar ajuda.

No fim das contas, o Agosto Lilás e o Setembro Amarelo falam de algo muito parecido: sobre perceber o outro enquanto ainda há tempo.

As campanhas mudam de cor.

A responsabilidade de cuidar de vidas não deveria mudar com elas.

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