Saúde
Burnout silencioso: por que algumas pessoas não conseguem descansar nas férias?
Levantamento mostra que quase 60% dos trabalhadores convivem com estresse frequente sem buscar ajuda; psicólogo explica os sinais de alerta e como prevenir o esgotamento

FOTO: Magnific
Julho costuma ser sinônimo de férias, mas nem todo trabalhador consegue realmente descansar nesse período. Segundo o Relatório Global de Bem-Estar no Trabalho de 2024 , do site de empregos Indeed, quase 60% dos profissionais se sentem estressados na maior parte do tempo, mas muitos seguem na rotina sem buscar ajuda ou comunicar suas dificuldades. Isso faz com que boa parte não consiga se desconectar do trabalho mesmo durante períodos de descanso.
O levantamento também revela que 78% dos entrevistados consideram que não estão prosperando profissionalmente. A análise considera indicadores como felicidade, satisfação, propósito e baixos níveis de estresse. No Brasil, o estresse é o fator com pior desempenho entre os quatro avaliados.
Para Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia da Estácio, o comportamento pode estar relacionado à cultura da produtividade constante. “Vivemos em uma sociedade que valoriza a disponibilidade permanente. Receber mensagens à noite, responder demandas durante as férias ou sentir culpa ao descansar passaram a ser comportamentos socialmente aceitos”, explica.
Ainda segundo o especialista, essa dificuldade em se desconectar mantém o organismo em funcionamento contínuo e compromete a recuperação física e mental. “O cérebro precisa alternar entre momentos de ativação e recuperação, mas quando isso não acontece por semanas ou meses, o organismo permanece em alerta constante, com aumento de cortisol e outras substâncias relacionadas ao estresse. Por isso, mesmo durante as férias, muitos profissionais não conseguem desligar completamente”, afirma.
A manutenção desse cenário pode estar associada ao chamado burnout silencioso, uma forma de adoecimento relacionada ao trabalho em que a exaustão emocional passa despercebida. “Nesse quadro, o indivíduo aprende a ignorar os sinais de fadiga, interpreta o cansaço como algo normal e segue funcionando até que o corpo passe a manifestar sintomas físicos, emocionais ou cognitivos”, alerta Helington.
Por isso, é importante reconhecer os primeiros indícios de que o esgotamento já está comprometendo a saúde, como cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade e perda de interesse por atividades que antes davam prazer. “Outro sinal de alerta é quando o indivíduo passa a viver apenas em função das obrigações, sem conseguir experimentar momentos genuínos de bem-estar”, completa o neuropsicólogo.
O papel das empresas e quando procurar ajuda
A prevenção do burnout depende tanto de escolhas individuais quanto das condições impostas pelo ambiente de trabalho. De acordo com Helington Costa, práticas de autocuidado são importantes, mas têm alcance limitado quando a cultura organizacional estimula jornadas excessivas, metas inalcançáveis e disponibilidade permanente. “Líderes que respeitam horários, distribuem bem as demandas, incentivam pausas e reconhecem os limites humanos reduzem o risco de burnout. Assim, contribuem para a construção de ambientes em que o adoecimento deixe de ser encarado como consequência inevitável do sucesso profissional”, orienta.
“Muitas pessoas ainda procuram um psicólogo apenas quando já não conseguem mais trabalhar, mas a intervenção precoce costuma trazer melhores resultados. Se a pessoa percebe cansaço constante, perda de prazer, dificuldade para descansar, irritabilidade ou que a vida passou a girar em torno do trabalho, já há motivo para procurar avaliação psicológica. A psicoterapia ajuda não só a tratar, mas também a prevenir o agravamento do quadro”, conclui.
