Entre Elos: Incluir & Aplicar
Fim de ano chegando e a temporada de matrículas abertas. E a inclusão ?

Acelina Mouzinho @acelinamouzinho.ac é pedagoga, psicopedagoga e especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e Atendimento Educacional Especializado (AEE). Desde 2016, atua nas áreas de aprendizagem, inclusão e neurodesenvolvimento.
Idealizadora do Incluir & Aplicar – Espaço de Desenvolvimento Humano, também é supervisora e consultora clínica e escolar.
Em sua coluna, ela traz conhecimento e orientação para quem acredita em uma educação mais inclusiva.
O que as famílias precisam observar antes de escolher a escola de uma criança ou adolescente neurodivergente.

Com a chegada do período de matrículas e rematrículas, muitas famílias começam uma busca que vai muito além de mensalidade, localização, estrutura física ou proposta pedagógica. Para quem tem um filho neurodivergente, escolher uma escola também significa tentar responder a uma pergunta delicada: “Meu filho será apenas recebido ou será, de fato, compreendido e ensinado?”
Essa preocupação não é exagero. Uma criança pode estar matriculada, uniformizada e sentada dentro da sala de aula e, ainda assim, permanecer excluída do processo educacional. Isso acontece quando está presente, mas não participa; quando recebe a mesma atividade, mas não consegue acessá-la; quando seu comportamento é julgado antes que alguém procure compreender o que ele está comunicando.
O Brasil possui aproximadamente 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista, segundo os dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE. Um levantamento nacional divulgado em 2026 também revelou uma contradição importante: embora a maioria das crianças e adolescentes autistas participantes estivesse matriculada, uma parcela expressiva não recebia apoio educacional. Portanto, ampliar o acesso é essencial, mas a matrícula, sozinha, não garante inclusão.
É importante que as famílias conheçam alguns direitos. Escolas públicas e particulares não podem recusar a matrícula de um estudante em razão de deficiência ou autismo. As instituições privadas também não podem cobrar valores adicionais na matrícula ou na mensalidade para cumprir as medidas de inclusão. Havendo necessidade comprovada de apoio nas atividades de comunicação, interação social, locomoção, alimentação ou cuidados pessoais, esse suporte deve ser organizado pela instituição de ensino.
Entretanto, conhecer os direitos é apenas uma parte da escolha. A existência de uma obrigação legal não garante, automaticamente, uma experiência escolar respeitosa, acolhedora e pedagogicamente eficiente.
Por isso, antes de escolher uma escola, a família precisa observar não somente o que aparece na propaganda, mas o que acontece na prática.
Como a escola recebe a família quando ela apresenta as necessidades da criança? A equipe demonstra interesse em conhecer o estudante ou passa a falar imediatamente sobre limitações e dificuldades? Há disponibilidade para dialogar com os profissionais que o acompanham? Os professores recebem orientação e formação continuada? A escola utiliza adaptações pedagógicas quando necessárias? Existe planejamento individualizado? Como são conduzidas as situações de desregulação emocional ou comportamental? A família é chamada apenas quando surge um problema ou também participa da construção das soluções?
As respostas a essas perguntas dizem muito mais sobre inclusão do que uma frase bonita escrita no projeto pedagógico.
Uma escola inclusiva não é aquela que promete que nunca haverá dificuldades. Desafios fazem parte de qualquer processo educacional. A escola inclusiva é aquela que não transforma a dificuldade em motivo para afastar o estudante. É aquela que observa, registra, planeja, ensina, avalia os resultados e reorganiza suas estratégias quando necessário.
Também precisamos abandonar a ideia de que incluir significa retirar todas as exigências ou permitir tudo. Inclusão não é ausência de limites. É oferecer condições para que o estudante compreenda o que se espera dele, participe das atividades e desenvolva autonomia. Algumas crianças precisarão de recursos visuais; outras, de instruções mais objetivas, maior previsibilidade, adaptação de atividades, intervalos regulatórios ou formas alternativas de comunicação. Oferecer o apoio necessário não diminui a aprendizagem. Ao contrário: torna a aprendizagem possível.
Nesse processo, não deve existir uma disputa entre família, escola e profissionais da saúde. A família conhece a história e a rotina da criança. A escola conhece as demandas do ambiente educacional. Os profissionais podem contribuir com avaliações e estratégias específicas. Quando cada parte trabalha isoladamente, surgem cobranças, desencontros e relatórios que pouco modificam o cotidiano. Quando existe colaboração, as informações se transformam em decisões práticas.
É preciso reconhecer, ainda, que muitos educadores desejam incluir, mas trabalham sem formação suficiente, sem recursos e sem uma rede de apoio organizada. Responsabilizar exclusivamente o professor por todas as dificuldades também seria injusto. A inclusão precisa ser assumida pela instituição: gestão, coordenação, professores, profissionais de apoio, família e equipe interdisciplinar devem compartilhar responsabilidades, respeitando as atribuições de cada um.
Ao visitar uma escola, não procure uma instituição que afirme estar completamente pronta. Provavelmente nenhuma estará. Procure uma escola que demonstre abertura para aprender, planejar, ouvir e rever suas práticas. Uma escola que não prometa respostas mágicas, mas aceite construir caminhos.
Sempre digo que todos podem aprender, mas ninguém aprende pulando etapas. Isso também vale para a inclusão. Não podemos exigir que uma criança acompanhe um percurso sem antes identificar as habilidades que ela já possui, as barreiras que enfrenta e os apoios de que necessita.
Neste período de matrículas, a pergunta não deve ser apenas: “Esta escola aceita meu filho?”
Pergunte também:
“Como esta escola pretende conhecê-lo?”
“Que oportunidades reais ele terá para participar e aprender?”
“Como família, escola e profissionais poderão construir esse processo juntos?”
A escolha da escola não é apenas a escolha de um prédio, de uma metodologia ou de uma mensalidade. É a escolha das pessoas que participarão diariamente da formação, da autoestima e do desenvolvimento do seu filho.
Matrícula abre a porta. Inclusão é o que acontece depois que a criança entra.
