Economia
Do descarte ao design: como a economia circular oxigena o mercado de estofaria no Rio Grande do Norte
Microempresa em Natal profissionaliza serviço de restauração, combate o desperdício de resíduos volumosos e prova que sustentabilidade gera lucro no ecossistema das MPEs
Por: Michelle Ariany e Naryelle Keyse
O mercado de prestação de serviços tradicionais, historicamente marcado pela informalidade e pela competição restrita aos preços baixos, passa por uma transição estrutural no Rio Grande do Norte (RN). No centro dessa mudança estão a profissionalização da gestão, o design estratégico e a economia circular. Um exemplo dessa metamorfose é a Trama & Forma Estofaria e Design, microempresa potiguar estruturada de forma independente em janeiro de 2026 para transformar a restauração de mobiliário em uma solução de alto valor agregado e forte apelo ambiental.
O negócio nasceu ao mapear uma insatisfação coletiva no mercado local: a escassez de compromisso técnico, cumprimento de prazos e cuidado no pós-venda em serviços artesanais. O que começou como um suporte informal para recuperação de assentos corporativos expandiu-se organicamente.
“Existia ali uma identidade própria, uma cultura baseada em reconstrução, cuidado, personalização e valorização do que já existe. Entendi que precisávamos de uma marca voltada à experiência do cliente e à valorização do design aliado à economia circular”, afirma a fundadora e CEO da empresa, a designer de interiores Patrìcia Olivêira.

Foto: Cedida por Patrìcia Olivêira | Trama & Forma
Profissionalização contra a cultura do improviso
A transição de um serviço complementar para uma microempresa estruturada exigiu o rompimento com o amadorismo. Sem recorrer a consultorias externas tradicionais no primeiro momento, a empreendedora investiu mais de dois meses no estudo de modelos de atendimento, padronização de processos e fluxos internos para desenhar um manual de cultura organizacional próprio. Hoje, a empresa utiliza ferramentas digitais para gerenciar fluxos que garantem a exatidão em acabamentos e prazos.
Essa busca por eficiência operacional dialoga diretamente com as orientações do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Segundo Mona Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto da instituição no estado, a organização interna é um divisor de águas para a sobrevivência de negócios tradicionais.
“A profissionalização gera ganhos significativos de produtividade, qualidade e rentabilidade”, explica Mona Nóbrega. “Quando o empreendedor estrutura processos, fortalece a identidade da marca e investe em gestão, ele passa a ter mais controle sobre custos, prazos e resultados. O que antes era visto apenas como um serviço tradicional passa a ser percebido pelo mercado como uma solução de valor agregado”.
Essa percepção de valor permitiu à Trama & Forma superar o desafio da precificação em um nicho viciado na barganha. Para educar o consumidor, a recepção da empresa exibe imagens ampliadas da anatomia interna de um sofá, provando que a reforma envolve engenharia estrutural, ergonomia e densidade de espumas, e não apenas a troca cosmética de tecidos.
Esse processo de migração de um serviço informal para uma marca estruturada, no entando, expõe os gargalos crônicos das Micro e Pequenas Empresas (MPEs) potiguares. Elisete Lopes, analista técnica e gestora de projetos do Sebrae, aponta que o primeiro grande desafio é a mudança de mentalidade. “Muitos empreendedores dominam a atividade técnica, mas ainda não enxergam seu negócio como uma empresa que precisa de planejamento, indicadores e processos padronizados”, explica. Lopes também aponta barreiras severas na gestão financeira, onde a falta de controles adequados dificulta investimentos em estrutura, marketing, capacitação e inovação, além dos desafios relacionados ao acesso a crédito, formalização e o acúmulo de funções pelo próprio empresário.
A analista ressalta que a inserção do design e da gestão estruturada altera profundamente a balança competitiva e promove a sustentabilidade econômica e ambiental. “O design desempenha um papel importante porque ajuda a transformar um serviço comum em uma experiência percebida como mais valiosa pelo cliente. Isso permite que o empreendedor deixe de competir exclusivamente por preço e passe a competir por qualidade, confiança e diferenciação. Do ponto de vista da sustentabilidade, processos organizados tendem a utilizar melhor os recursos, reduzir retrabalho e ampliar a vida útil dos produtos e serviços oferecidos. O resultado é um negócio mais resiliente, eficiente e preparado para gerar impacto positivo de forma duradoura”, conclui Elisete.
O mercado verde e o combate ao descarte volumoso
Além do ganho estético, a restauração surge como resposta direta de um gargalo ecológico crítico. O descarte irregular de resíduos volumosos é um problema crônico no Brasil, país onde estimativas apontam que mais de 1,5 milhão de toneladas de móveis são jogadas no lixo anualmente, gerando custos severos para as administrações públicas urbanas.

Foto: Cedida
Ao recuperar bases de madeira, ferragens e estruturas metálicas que iriam para aterros, a microempresa estende o ciclo de vida dos materiais e reduz a pressão sobre os recursos naturais virgens. O plano de expansão da empresa prevê a criação de um projeto estruturado para coletar assentos descartados nas vias públicas, restaurá-los e destiná-los a instituições públicas e espaços comunitários carentes. Duas peças recolhidas recentemente já estão na oficina para dar início ao projeto-piloto.
“A restauração deixou de ser apenas economia financeira. Hoje ela também representa responsabilidade ambiental”, defende Patrìcia Olivêira. “Com o apoio de outros, empresários, parcerias entre os setores público e privado e uma conscientização maior da população, estimo que seja possível reduzir em até 70% o descarte irregular desse tipo de material na Grande Natal nos próximos anos”.
A viabilidade financeira desse posicionamento ecológico encontra respaldo técnico no Sebrae. Mona Nóbrega ressalta que a sustentabilidade se tornou um fator de diferenciação e competitividade frente ao varejo digital de larga escala.
“A economia circular se traduz em práticas como reaproveitamento de materiais, redução de desperdícios, manutenção, conserto e reutilização. Além de reduzir custos operacionais, essas iniciativas agregam valor à marca e atendem a um consumidor mais atento. Sustentabilidade e lucratividade caminham juntas quando a inovação é incorporada à gestão”, pontua a gerente.
Apesar do apelo ecológico e mercadológico, a consolidação desse ecossistema enfrenta resistências culturais profundas no cenário do consumo nacional. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada pela Nexus com 2.019 entrevistados em todas as regiões do país, revela que o comportamento do brasileiro é contraditório: embora 72% da população veja de forma positiva as empresas que investem em sustentabilidade, há forte relutância prática, e 43% afirmam resistir abertamente à compra de produtos reciclados, independemente do valor econômico. Entre os principais motivos para esse impasse estão a estrita preferência por intens novos (34%) e dúvidas presistentes quando à durabilidade dos materiais reaproveitados (30%).
É exatamente nessa lacuna de desconfiança do mercado que o prolongamento da vida útil se consolida como diferencial de sobrevivência. Elisete Lopes esclarece que a economia circular é altamente aplicável a microempresas de setores tradicionais do RN, como móveis, confecção, construção civil, turismo, alimentação e serviços de manutenção, justamente por partir da lógica de fazer mais com menos. “Em um cenário em que muitos produtos se tornam commodities e a concorrência digital ampliou a disputa por preço, serviços especializados de restauração, recuperação e personalização ganham relevância por entregarem valor agregado e experiência ao cliente, pontua Lopes”. “A recuperação de móveis atende tanto à demanda por economia quando à crescente conscientização sobre o consumo responsável. Além disso, existe um componente emocional importante, já que muitas pessoas desejam preservar peças com valor afetivos ou histórico. O diferencial deixa de ser apenas o serviço executado e passa a ser a solução completa”.
Liderança feminina e impacto na cadeia local
A consolidação da Trama & Forma também ilustra um movimento mais amplo de ocupação de espaços pelas mulheres. O setor de marcenarias, oficinas e estofarias é historicamente dominado pelo público masculino. Patrìcia, que acumula oito anos de experiência prévia no mercado técnico de mobiliário corporativo, relata os desafios de posicionamento necessários para consolidar sua credibilidade em ambientes tradicionalmente rígidos.
O avanço da liderança feminina nos pequenos negócios do Rio Grande do Norte é comprovado por dados oficiais da Receita Federal, tabulados em marços de 2026:

Elaboração: Elo Jornal.
Mona Nóbrega confirma que a inserção feminina tem quebrado barreiras em setores industriais e de manufatura. “Observamos um avanço consciente em áreas como serviços especializados, indústria de transformação e negócios de impacto. Esse movimento mostra que as barreiras estão sendo gradualmente superadas, impulsionadas pela qualificação”, analisa a gestora do Sebrae.
Elisete Lopes valida essa expansão estatística e reitera que o protagonismo feminino vem crescendo e ocupando posições de destaque não apenas no comércio, mas na indústria, inovação, economia criativa e em atividades técnicas especializadas. Todavia, a analista pondera que o avanço pleno ainda esbarra em obstáculos estruturais cotidianos. “Ainda existem desafios relacionados ao acesso a crédito, redes de relacionamento, divisão das responsabilidades familiares e oportunidades de crescimento. No entanto, os avanços são evidentes, e iniciativas de capacitação, mentoria e fortalecimento têm contribuído para ampliar esse espaço”, avalia Lopes. Para a gestora, dar suporte institucional a esse nicho é vital para o desenvolvimento potiguar. “Para o Sebrae, fortalecer o empreendedorismo feminino significa ampliar a geração de renda, promover inclusão produtiva e impulsionar o desenvolvimento econômico e sustentável do estado”.
O desafio do apagão de mão de obra artesanal
A expansão do negócio enfrenta um desafio estrutural comum ao artesanato industrializado: a sucessão gerencial e técnica nas oficinas. A cadeia de fornecedores da Trama & Forma é estritamente regional, englobando do suprimento de madeiras e espumas à logística, mas a escassez de novos profissionais especializados preocupa a gestão.
Muitos artesões e estofadores estão envelhecendo, e há desinteresse dos jovens pelo aprendizado do ofício manual. O negócio enxerga nesse gargalo uma oportunidade futura de inclusão produtiva, por meio da criação de capacitação que preservem o conhecimento técnico sensível e gerem renda local. Fortalecer a manufatura de base, afinal, é garantir a sustentabilidade econômica de todo um ecossistema de micro e pequenos negócios no estado.
