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Cultura

A economia da cultura e a transformação de ruínas em arte

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Como iniciativas privadas contribuem com o desenvolvimento da cena artística do RN através de investimentos

Do lado de fora, um homem na faixa dos 40 anos admira as cores e desenhos do mural do prédio. A reforma já acabou, e ele contempla desde as telhas pintadas de branco até os dizeres em preto e o sol desenhado à mão, de onde um rosto de perfil dá um sorriso. Observa e suspira, aliviado. Está de frente à sua nova sede de trabalho, um prédio antigo do Governo do Estado, que foi legalmente cedido ao grupo de teatro O Pessoal do Tarará, na comunidade da Baixinha, em Mossoró. “Termos a nossa sede, dentro da nossa comunidade, é de uma dignidade… Emociona”. Em atuação desde 2002, entre praças, espaços emprestados, muitas vezes precários, e sempre em mudança, reina agora a permanência: “São 20 anos que vamos passar sem precisar se preocupar com aluguel”.

Fachada colorida do teatro é pano de fundo para apresentação de crianças em noite de finalização de cursos | Crédito: Reprodução

Quem traz esses relatos é Dionízio do Apodi, ator e diretor de 48 anos, um dos integrantes do grupo artístico. No último mês de abril, o Governo do Estado oficializou, através da Datanorte, a cessão do prédio do antigo Centro Social Urbano (CSU), que estava em desuso há anos. Desde outubro de 2025, a companhia teatral passou a ocupar o terreno, desenvolvendo atividades diariamente de arte e cultura. Isso pode ter facilitado a conquista do espaço pelo grupo, que também é reconhecido há cerca de duas décadas como de utilidade pública a nível estadual e municipal.

Ter o próprio local de trabalho dentro da comunidade em que atua há anos tem um peso especial. “Temos uma responsabilidade com o território em que estamos inseridos, se trata de uma comunidade muito rica culturalmente, mas que também é carente. Nossa luta é esta: colocar mais gente fazendo e vivenciando cultura”, afirma.

O prédio é um espaço de criação para a própria companhia, mas também é aberto a parcerias com outros grupos de teatro locais, já que muitos não têm sede própria. Além disso, funciona como teatro-laboratório, focando no treinamento e no aperfeiçoamento de processos criativos. O Pessoal do Tarará promove uma intensa programação de núcleos de estudo, espetáculos teatrais e até oficinas formativas para a população, em áreas como dança e teatro, promovendo a circulação de pessoas na arte praticamente todos os dias.

E com um detalhe importante: sem cobrar nada. “Todas as nossas atividades são gratuitas, não cobramos ninguém. Entendemos que cultura é um direito de todos, assim como moradia, alimentação, etc; está na Constituição. Temos consciência de que o Estado é o responsável, mas temos feito isso porque a nossa arte chega em alguns lugares que o poder público não chega”, explica o apodiense. Apesar de originário da comunidade da Baixinha, o grupo não se limita a ela, e leva seus espetáculos e ações para outros bairros e comunidades periféricas, na zona rural e em outras cidades da região.

Com o documento de cessão do prédio assinado, segue grupo: Álex Martins, Dionízio do Apodi, Renata Soraya, Cumpadi Caboco e Dani Santos | Crédito: Reprodução

Além de estar de portas abertas para outros grupos locais, existe uma relação de parceria com entidades maiores, como o Banco do Nordeste Cultural, uma das maiores iniciativas privadas do Brasil na área do desenvolvimento da cultura. A atuação do BNB Cultural se baseia na democratização do acesso às manifestações artístico-culturais, no apoio à produção, fruição e circulação das artes, entre outros. Apoios esses já ofertados a O Pessoal do Tarará.

Até poucas semanas atrás, o teatro-laboratório sediava boa parte da programação da instituição na capital do Oeste. Isso porque foi criado o Centro Cultural Banco do Nordeste de Mossoró em 2024, com a definição de que a entidade seria instalada no Teatro Lauro Monte Filho, por meio de termo de cessão de uso firmado pela governadora do estado, Fátima Bezerra. No entanto, o prédio passou por obras de revitalização durante mais de um ano, e, enquanto não ficava pronto, o BNB Cultural seguiu seu calendário regular de eventos nas sedes de vários grupos locais.

A iniciativa, segundo Dionízio do Apodi, é uma forma de fortalecimento dessas companhias de teatro. O que não é uma prática de agora, já que a história do seu grupo está intimamente ligada ao banco.

“Quando saímos da faculdade e formamos O Pessoal do Tarará, éramos cinco jovens que começaram a buscar oportunidade para fazer espetáculo. Nossa primeira peça era formada por uma bicicleta que puxava um palcozinho sobre rodas. Ela percorria todas as comunidades periféricas e zona rural aqui da cidade. O Banco do Nordeste se interessou e foi o primeiro apoio que nós tivemos, lá no início dos anos 2000”, conta o diretor artístico. 

Grupo atua com repertório, apresentando várias peças ao mesmo tempo. Na foto, apresentação de “Ai, meu Deus!” para jovens de Baraúna | Crédito: Reprodução

Para Dionízio, o motivo pelo qual o banco escolheu e segue escolhendo apoiar o grupo da comunidade da Baixinha está no propósito em comum. “Como o Banco do Nordeste tem muita noção de desenvolvimento territorial, e da região, viu na gente a oportunidade de chegar nas pessoas”, supõe. Desde então, ele perdeu as contas de quantas vezes o grupo já estabeleceu algum tipo de parceria com a instituição.

Cultura regional em números

Você pode estar se perguntando como o Banco do Nordeste efetivamente seleciona os projetos que patrocina. São considerados alguns critérios, entre eles o fato de que estejam circunscritos à área de atuação do BNB (ou seja, os estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais e o norte do Espírito Santo), além de contemplarem diferentes áreas artísticas e culturais (artes cênicas, artes visuais, literatura, música, cinema etc). Há ainda critérios de seleção que podem se diferenciar de outros programas de incentivo pelo Brasil, tais como: contribuição sociocultural do projeto, impacto regional e afinidade com missão e valores do banco, sendo eles a ética, a cidadania, a diversidade e a sustentabilidade.

E o investimento não é pouco. Somente no período de 2023 a 2025, o Banco do Nordeste investiu mais de R$ 51 milhões em patrocínios a projetos culturais, contemplando 414 iniciativas. Já para o ano de 2026, está previsto um orçamento de R$ 11 milhões apenas para o Programa Rouanet Nordeste, do Ministério da Cultura, para contemplar 44 projetos diferentes na região.

Quando falamos sobre o Rio Grande do Norte, um dos nove estados nordestinos, o BNB desembolsou R$ 2,2 milhões para projetos culturais em 2025. Este ano, está previsto um investimento de R$ 5,7 milhões para o BNB Cultural Mossoró, incluindo a finalização da obra de revitalização do Teatro Lauro Monte Filho. Inaugurado no último 14 de maio, o prédio abriga o primeiro Centro Cultural Banco do Nordeste do estado e o quarto da região – as outras unidades estão em Fortaleza/CE, Juazeiro do Norte/CE e Sousa/PB.

Novo centro cultural BNB Mossoró em noite de inauguração; investimento previsto da entidade para o RN em 2026 é mais do que dobro de 2025 | Crédito: Divulgação

Para Aldemir Freire, diretor de planejamento do Banco do Nordeste, o investimento em cultura é indispensável para o desenvolvimento da região. “Nós entendemos a cultura como uma dimensão essencial ao desenvolvimento regional, não apenas como ‘evento cultural’, mas como componente de coesão social, geração de renda, fortalecimento da identidade e do capital humano no Nordeste”, assegura.

Quem tem uma visão parecida é Manoel Onofre Neto, estudioso da arte, colecionador e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN). De acordo com ele, fomentar a cultura é investir não apenas em desenvolvimento humano, como também econômico. “A cultura é um dos pilares do desenvolvimento. Ela não traduz apenas a identidade de um povo, mas também gera dividendos concretos, com impactos diretos e indiretos na economia. A chamada economia criativa é hoje um vetor relevante de crescimento em diversas regiões do mundo. É evidente que áreas como saúde, segurança e infraestrutura são essenciais, no entanto, pensar o desenvolvimento de forma plena exige compreender que a cultura dialoga com todas elas, qualificando a vida urbana, promovendo inclusão e contribuindo para a formação cidadã”, afirma. 

Na opinião do estudioso, se pudéssemos “calcular” o desenvolvimento cultural de um estado, múltiplos fatores deveriam ser levados em conta. Entre aspectos mensuráveis estão:

  • Volume e regularidade de investimentos públicos e privados
  • Existência de políticas públicas estruturadas
  • Número e qualidade dos equipamentos culturais
  • Acesso da população às atividades culturais
  • Valorização dos artistas locais
  • Inserção da cultura na dinâmica econômica
O estudioso da arte, Manoel Onofre Neto, ainda é procurador do estado e conselheiro de cultura | Crédito: Cynthia Campos/Assecom-FJA

Dados mais recentes que podem ajudar a fazer essa matemática são do Censo Demográfico de 2022. Em todo o Rio Grande do Norte, o setor de cultura era composto por 5.961 unidades locais, que empregaram 20.590 trabalhadores, sendo 13.305 assalariados, movimentando R$ 354 milhões em salários e outras remunerações. O levantamento mostrou ainda que Mossoró contava com apenas 5,1% das unidades culturais do estado, contra 51% da líder, Natal.

Dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais 2013–2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traçaram um panorama dos gastos públicos com cultura no Rio Grande do Norte. Em 2023, o governo estadual investiu R$ 79,7 milhões na área, o equivalente a 0,36% do orçamento geral do estado. O valor não chega nem a um por cento. Somando as despesas dos 167 municípios potiguares, o investimento foi de R$ 245,6 milhões em 2023.

Em relação aos rendimentos, os trabalhadores da cultura no RN tiveram, em 2024, renda média de R$ 2.443, quando o salário mínimo era de R$ 1.412. Comparativamente, a média dos estados brasileiros em renda na área da cultura era de R$ 4.624. Pernambuco, maior salário médio do Nordeste, alcançou o valor de R$ 3.251.

São números que apontam negligência quanto à cultura potiguar. Para Manoel Onofre Neto, o grande desafio é transformar ações pontuais de fomento à cultura em políticas permanentes, sustentáveis e estruturantes. “É isso que permitirá ao Rio Grande do Norte explorar plenamente sua riqueza cultural e convertê-la em desenvolvimento”, finaliza.

Quem compartilha dessa ideia é Dionízio, do grupo O Pessoal do Tarará, cuja história deu início à reportagem. Seu vínculo com o teatro começou ainda na infância, nas feiras de Apodi, sua cidade natal. Formado em Ciências Sociais, o artista passou cinco anos em São Paulo estudando teatro e desenvolvendo suas habilidades de interpretação e direção. Voltou a Mossoró para repartir e construir. “Nunca passou pela minha cabeça fazer teatro só por hobbie ou entretenimento. O teatro que fazemos até hoje é um teatro ao qual nos dedicamos integralmente”, explica. A luta do grupo teatral é pela constante aprovação de seus projetos em editais e programas de incentivo. Dionízio acredita fortemente nas políticas públicas.

Propósito do grupo também é formativo; comunidade comemora fim das oficinas de teatro, dança e musicalização infantil | Crédito: Reprodução

“Nós participamos ativamente da construção de políticas públicas, tanto a nível municipal, quanto estadual e federal. Estamos disponíveis para essas construções porque entendemos a sua importância”, explica. O Pessoal do Tarará integra a Cooperativa de Cultura Potiguar, a Rede Pavio de Teatro (que reúne mais de 50 grupos de todo o Nordeste), a Rede Mossoroense de Pontos de Cultura de Teatro e a Rede Territorial Sertão Apodi. São nessas aglutinações que os grupos se fortalecem, robustecendo suas atuações e desenvolvendo políticas que façam sentido para a realidade da região e daqueles trabalhadores. Assim constroem, tijolo a tijolo, o caminho rumo ao futuro de uma cultura potiguar mais estruturada. Mais ou menos como fizeram com o prédio que têm hoje. 

“Achamos um prédio público abandonado, sem utilização, e hoje estamos dando outro significado pra ele: onde existia abandono, a comunidade se encontra para consumir cultura”, afirma Dionízio. Das ruínas, também é possível construir uma bela arquitetura. 

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