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Opinião

Das coisas que queremos esquecer

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Foto: Bigstock

O ano de 2020 iniciou cheio de expectativa, ao menos para mim, o meu número favorito tornaria a ser minha idade, 23. Na faculdade, a ansiedade por projetos de extensão que nos coloque em uma experiência ímpar era grande, o Trilhas Potiguares era um dos pilares da união entre academia e sociedade. Foi participando do projeto que conheci São João do Sabugi e muitas das suas figuras locais no ano passado.  

Mas muito antes de qualquer realização, tudo foi por água abaixo. Primeiro que nos dias iniciais do período letivo de aula, uma pandemia estourou mundialmente, inclusive no Brasil. Nesse momento estávamos em meio a um evento em nosso departamento de comunicação, acontecia a Semana de Comunicação “Mulher, Mídia e Resistência: Discussões Contemporâneas Interdisciplinares”, que finalizaria com uma mesa redonda no dia 13 de março, nomeada “Marielle, Presente! 730 dias sem justiça!”, que infelizmente teve que ser adiada em decorrência do Covid-19 e os riscos de contágio em massa.

De março até aqui muita coisa aconteceu, e infelizmente não temos uma data concreta sobre quando vai acabar. O que desbravou sua mente em todas essas mudanças que fomos obrigados a lidar? Pensei na estranha sensação de se usar máscara, logo no início, e fiquei com receio de não ser reconhecida pela minha irmã mais nova, o segundo passo foi fazê-la, com dois anos e meio de idade, querer utilizar a máscara também. E fiquei pensando o quão diferente serão as crianças, que estão neste momento andando e iniciando a falar, que desde pequenos possuirão o costume de ver fragmentos de nossos rostos, sem poder ler nossas expressões… No final das contas, percebi que esse era o menor dos nossos problemas, afinal. 

Aí veio o aumento gigantesco de mortes, casos confirmados a todo momento, quarentena, medo, desesperança. Pensei nas crianças que perderam seus pais, nos amantes que perderam seus amores, penso muito sobre o valor da perda. O governo zombava e zomba das vidas perdidas, e eu só conseguia me questionar até onde isso iria, onde estaria o luto dos nossos governantes diante de uma crise sanitária e mortes em massa? A nossa liderança estava – e ainda continua – em plena miséria, no pior dos sentidos.

Em julho, a saúde mental estava esgotada, sem perspectiva de nada. Mortes, aumento de casos, aglomerações… Quando o caso do Lago na Califórnia explode na mídia, a atriz e cantora Naya Rivera, 33, estava em um passeio com seu filho de 4 anos, decidiram nadar, coisa que eles costumavam fazer juntos, ao menos foi o informado pela família dela. A atriz conseguiu colocar o filho na lancha, mas não conseguiu voltar, e não estava com colete no meio de águas profundas. Eu particularmente não acompanhava efetivamente a atriz, mas sabia da importância do seu papel como Santana, no seriado Glee. Eu fiquei tão chocada, imaginando aquela criança sem ninguém, sem ver a mãe e nada mais além de água. Eu não conseguia me desligar do caso, estava em estado de puro desespero, coração apertado, imagine a família, os amigos, os fãs? Eu não conseguia dormir, meu sono foi fragmentado em muitas partes, eu acordava a cada hora para certificar-se que a Naya tinha sido encontrada, e com vida. Durou dias, e infelizmente o desfecho não foi o que eu e todo mundo esperava. Exame pós-morte da cantora e atriz, alegou que ela gritou por socorro antes de se afogar. No meio de uma pandemia. Eu não conseguia absorver como as coisas poderiam ser tão ruins, de um jeito generalizado como a pandemia, e de um jeito mais específico, como ocorreu com a Naya e que ocorre com milhares de outras famílias diariamente e de formas diversas. Eu queria muito falar sobre a importância da Naya e do seu trabalho na época, mas a dificuldade de lidar com sua perda e de como ela ocorreu de forma tão angustiante e traumatizante me fez não conseguir. É muito difícil falar sobre perdas, sobre coisas que de uma forma geral a gente não quer absorver, não quer falar, não quer realmente lidar. 

Veio o ensino remoto logo em seguida, e algumas situações que eu gostaria de esquecer. Mas não é o momento para tratar disso. Em contrapartida, sabe quando você conta a história de uma pessoa que tinha receio de nunca ser realmente ouvida? Eu tive esse privilégio, tive a honra de conhecer alguém tão importante que banhei-me de lágrimas todas as vezes que falei sobre sua presença. E eu tinha estado com ela poucos dias, durante o projeto da UFRN, Trilhas Potiguares de 2019, mas foi extremamente importante ouví-la, não apenas para mim como formanda em Jornalismo, mas como pessoa. 

Recebi um print do Notícias do Face sobre uma nota de falecimento. A foto usada? Uma foto que tirei durante minha passagem no Município. E a dor foi tão avassaladora, que eu sentia minha cabeça ferver e meus olhos queimando de tanto chorar por aquela pessoa que ouvi contar sua história e que nunca ousarei esquecer, tentei negar, não aceitar. Fui atrás de notícias que dissessem o oposto, mas infelizmente não se tratava de uma fake news. Era Covid-19, ela adoeceu após passar um tempo internada aqui na capital. Não era sob essas circunstâncias que queria ouvir seu nome e ver seu rosto, mas infelizmente eu não tive o poder de escolha.

A nossa única escolha está em nos manter salvos, para assim, tentar proteger todos aqueles que amamos e os que nem chegamos a conhecer ainda. Sim, não temos que pensar no bem estar apenas da nossa bolha. É importante pensarmos coletivamente, e que toda vida tem valor, amor, historia, dores… Toda vida traz um universo novo em meio ao vasto mundo em que vivemos. E usar máscaras, álcool em gel, lavar as mãos com água e sabão com frequência, não aglomerar também são atos de amor não apenas próprio, mas também coletivo e que podem salvar vidas. Esses cuidados que nos deparamos neste ano, estão entre as poucas coisas que não podemos, de jeito algum, esquecer. 

Que nosso senso de coletividade seja maior que nosso egoísmo dentro de um momento tão específico e difícil do ano. Nada muda se você não mudar. Lembre-se disso em 2021. 

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