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Esporte

Panteras Negras e o início da era “Black Power”

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Medalhistas nos jogos olímpicos de 1968, Tommie Smith e John Carlos se tornaram heróis da luta dos negros por direitos civis nos Estados Unidos

Tommie Smith, John Carlos e o gesto simbólico (Imagem: Angelo Cozzi/Mondadori Publishers)

Nas olimpíadas de 1968, os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos protagonizaram um dos atos mais polêmicos já ocorrido nos jogos. Era 16 de outubro, o segundo dia de provas de 200 metros rasos. O Jato, como era conhecido Tommie, fez jus ao favoritismo e levou o ouro, e John, seu compatriota, ficou com o bronze.

Os corredores estadunidenses se abraçaram após a conquista, ainda na pista. E dali sairia o protesto que entraria para a história do esporte. Na premiação da entrega das medalhas, retiraram os sapatos e ficaram de meias pretas quando subiram ao pódio para receber as medalhas.

Ao tocar o hino dos Estados Unidos, ambos baixaram ligeiramente a cabeça e ergueram seus braços com uma luva preta nas mãos, como uma saudação consagrada pelos Panteras Negras. Esse gesto era um clamor na luta pela igualdade de direitos civis, uma forma de atestar que o racismo deveria ser combatido.

Os Panteras Negras foram uma organização de cunho socialista e revolucionário que atuou nos EUA entre os anos de 1966 e 1982, que combatia a discriminação racial, e foi criado pela necessidade de fornecer proteção à população negra que era constantemente perseguida e agredida pela parte branca da população norte-americana, principalmente policiais.

Os anos 60 não foram fáceis para a população negra estadunidense. Malcom X e Martin Luther King Jr, símbolos negros da época, foram assassinados. Acontecia, também, a guerra do Vietnã, da qual os EUA sairiam derrotados e com aproximadamente 60 mil soldados mortos, sendo a maioria negros.

Ainda, Muhammad Ali, multicampeão de boxe, perdeu seu cinturão por se negar a lutar na guerra. Foi uma era de protestos e repressões sangrentas vividas pela comunidade negra.

Mesmo passados 52 anos, os ecos desencadeados por John Carlos e Tommie Smith voltaram ressoando com força no mundo do esporte atual, pois foi um protesto que redefiniu o conceito de ativismo no esporte.

Um exemplo que ocorreu recentemente foi o boicote dos atletas negros que conseguiram suspender uma rodada inteira da maior liga de basquete do mundo, a NBA, em protesto ao racismo após uma tentativa de assassinato a um homem negro por dois policiais brancos em Kenosha, cidade do estado americano de Wisconsin.

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Jogadores do Denver Nuggets e do Utah Jazz se ajoelham em protesto contra o racismo e violência policial (Imagem: Mike Ehrmann/Getty Images)

Voltando a John e Tommie, os dois eram ativistas na Universidade Estatal de San José, Califórnia, onde faziam parte do OPHR (Projeto Olímpico pelos Direitos Humanos, em tradução livre), de criação do sociólogo Harry Edwards.

“As pessoas começaram a aplaudir com entusiasmo. De repente, imagino que decidiram que não gostavam do que estavam vendo e (os aplausos) se tornaram veneno e ira”, explicou Carlos em um encontro na Cidade do México em 2018.

Porém, o Comitê Olímpico Internacional não aceitou e condenou severamente o gesto, afirmando que esporte e política são assuntos separados, não se devendo confundir. Imediatamente, a dupla de corredores tiveram seus vistos de permanência no México cancelados e, no dia seguinte, foram expulsos da Vila Olímpica.

Seus companheiros de atletismo quiseram abandonar os jogos, mas os medalhistas os convenceram a competir. Lee Evans, Larry James e Ron Freeman correram e levaram o ouro. No pódio, usaram boinas, outro símbolo dos Panteras Negras.

Smith havia vencido a prova com direito ao novo recorde mundial (19s83), seguido pelo australiano Peter Norman que, na hora pouca gente notou, mas também apoiou o movimento. O atleta da Austrália carregava no peito um broche com a inscrição “Projeto Olímpico para os Direitos Humanos”.

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Tommie Smith (à direita) dos EUA vence a final dos 200 metros masculinos nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, 16 de outubro de 1968. O medalhista de bronze John Carlos, também dos EUA está à esquerda. (Imagem: Douglas Miller/Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

A dupla de medalhistas americanos conseguiram ao menos ficar com as medalhas, apesar de grande luta do COI contra. Nos EUA, Smith e Carlos também receberam críticas severas da imprensa e da parcela branca da população.

A federação de atletismo estadunidense retirou o apoio aos atletas e a carreira dos dois também ficou à deriva. Depois de décadas, Smith e Carlos ganharam status de heróis e foram indicados como fundamentais na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos. A cena ficou marcada como um dos mais fortes protestos da história do esporte.

“As pessoas enxergam o gesto como sacrifício. Vejo como responsabilidade”, disse Smith, hoje com 76 anos, em entrevista a jornais americanos.

“De que lado da história você está?”, questiona o site oficial de Carlos, um ano mais novo que o amigo e colega de treino.

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John Carlos e Tommie Smith. (Imagem: Divulgação/Site oficial/John Carlos)

Norman, o medalhista de prata, pode ter ficado mais esquecido na importância deste protesto, orquestrado pela dupla norte-americana, mas Tommie Smith e John Carlos fizeram questão de viajar até à Austrália para o funeral do seu colega de protesto, em 2006. Afinal, tinham protagonizado juntos um dos protestos mais midiáticos da história esportiva do século XX.

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