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Opinião

Sobre o não esquecer

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Sim. Eu me lembro das nossas tardes na varanda, conversando como se não existissem outras pessoas, sobre as nossas músicas, sobre os nossos sonhos e repetindo as piadas dos nossos pais. Quando as horas não nos importavam, mal olhávamos os nossos celulares. Parece que nossos olhos ganharam novo formato, meio retangular e luminoso, e nossos dedos deslizam sobre a tela para nos vermos. Me acalma saber que vai passar, é só um momento, não a nossa vida inteira. 

Uma semana parecia pouco tempo, quanto mais semanas passam, mais as dúvidas e os medos aumentam. Saudade é sim uma coisa engraçada e parece que ocupa cada vez mais espaço. Comecei escrevendo sobre o pôr do sol, porque era isso que enxergávamos juntos na varanda, de repente entre todas as palavras, a saudade apareceu. Um pouco metida eu diria, trazendo de volta tantos sentimentos.

Tenho uns discos guardados em casa, dos meus pais, do meu avô, lembrei das tardes em que eu era criança e ele colocava para eu e meu irmão escutarmos. Coisas antigas, que de vez em quando voltam. Coisas boas sempre. O lado ruim é quando não é uma questão de memória, embora também não baste atravessar a rua para ver alguém. O “até quando?” que virou o novo “até logo”. Não temos respostas. 

Foto: Laura Santos

Entre alguns livros escondidos, os cartões de aniversário, anotações aleatórias de recados provavelmente nunca entregues. Envelopes vazios, talvez usados como marca páginas. É incrível saber que algo aconteceu, que fizemos conscientemente, mas não lembrar o que foi com precisão. Essa tal consciência momentânea que se dilui com o tempo. 

A seletividade da memória, uma brincadeira em nossas mentes. Porque eu me lembro da varanda, do ônibus, de olhar para trás. Lembro de caminhar entre as ruas, do sabor do sorvete, da música que tocava. Do banho de quintal, cheio de lama, com as minhas primas e o meu irmão, as escaladas nas árvores, as telhas quebradas (crimes que nos recusamos a admitir). Mas não lembro dos números escritos em recortes de papel ofício guardados dentro dos meus livros.

Sobre pensar em dias e se alegrar. O pôr do Sol de dentro do carro na estrada, as viagens longas quando se é pequeno demais para entender de distâncias. Na verdade, não existe idade para compreender as distâncias. Por agora, meus dedos folheando álbuns ou suavemente desbloqueando telas para poder ver de novo. Mesmo tendo carros, ônibus, são ruas vazias entre mundos invisíveis. E é bom que permaneça assim por um período.

Foto: Laura Santos

É estranho pensar que um dia o vazio seria o nosso consolo, nós que adoramos nos encher de tudo e todos. Mas é preciso esvaziar para só depois nos enchermos novamente, de abraços, cuidados, novas e esquecidas memórias. Se podemos fazer parte do processo de cura, se é a única responsabilidade que nos cabe neste instante. Prefiro mil vezes a esperança de novas imagens, do que viver sabendo do que poderia ter sido, do que foi interrompido. Tanto para mim, quanto para os outros. Ruas vazias são os nossos novos símbolos de amor. Há coisas impossíveis de esquecer.

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