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Cultura

Com espetáculos suspensos pelo coronavírus, circos enfrentam dificuldades

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Sem salários, artistas buscam novas formas de se manter

Hermano Suarez está fechado há quase dois meses e sem previsão de volta (Foto: Priscila Smiths/O POVO)

A tenda ainda está de pé, mas lá de dentro não ecoam mais risadas e aplausos. Há quase dois meses essa é a rotina do Circo Hermanos Suarez, fundado em 1872 e atualmente hospedado em Mossoró-RN. Em decorrência da pandemia de covid-19, o Governo do Rio Grande do Norte publicou, em 18 de março, decreto que regulamentou os serviços essenciais e a proibição de aglomerações, entre eles os eventos culturais. Assim, as apresentações tiveram que ser interrompidas. Se adiantando, a trupe mexicana já havia paralisado as atividades três dias antes.  

Rubens Suarez, 30, viveu toda sua vida envolto entre palcos, lonas e acrobacias. Integrante da sexta geração da família Suarez, é ele quem administra a companhia e hoje enfrenta uma situação delicada. Sem shows, não há público. Sem público, não há renda. Assim, os circenses encaram o espetáculo mais difícil por qual já passaram. “Somos aproximadamente 70 pessoas e 20 delas conseguiram ir para casa. As outras 50 estão aqui, em casas diferentes”, diz o gestor.

Há cinco meses no Brasil, o Hermanos Suarez passou antes pelo Caribe e chegou em Fortaleza-CE, até desembarcar no estado potiguar. Com as boas-vindas recebidas em Mossoró, a expectativa era de conquistar uma alta renda. Os planos, porém, foram frustrados. Segundo Rubens, o prejuízo com a interrupção das sessões chega a cerca de 200 mil reais. 

Sem a bilheteria e sem poder exercer o ofício que tanto gostam, os circenses agora se viram como podem. Alguns saem para fazer bicos, enquanto funcionários da manutenção e administração continuam indo diariamente para a tenda instalada dentro da Estação das Artes. 

Na falta de trailers para morar, os trabalhadores estão espalhados em cinco casas alugadas e contam com o apoio da prefeitura municipal. Para manter a forma física, integrantes como dançarinos, acrobatas e o “homem mais forte do mundo”, treinam dentro das residências, longe do espaço a que estão habituados. 

Agora, além da ajuda do poder público, os artistas buscaram outra forma de se manter. Além das doações que recebem na loma armada na Estação das Artes, das 10h às 18h, também criaram uma vaquinha virtual que espera arrecadar 25 mil reais.

‘Presos’ em Goiás

Desde 20 de março, Gena Leão passou a viver mais intensamente sua identidade real. Com os circos fechados em decorrência da pandemia do novo coronavírus, suas maquiagens e caracterização da palhaça Ferrugem, profissão que ela encara com prazer há 33 anos, agora ficam mais tempo na gaveta.

O natalense Circo Grock, que Leão fundou junto com Nil Moura em dezembro de 2005, estava em Ituiutaba-MG antes de interromper as apresentações. Mais modesto, a turma de artistas conta com apenas sete componentes. O dinheiro que entra no caixa do grupo potiguar vem das bilheterias e de palestras para empresas. Segundo Leão, que no picadeiro assume a identidade de Palhaça Ferrugem, o público já estava fraco antes da pandemia. Com a interrupção devido a crise da covid-19, piorou. 

Grock une circo, teatro e dança (Foto: cedida)

Após deixar a cidade mineira, o Grock viajou para o município goiano de Quirinópolis, onde hoje recebe apoio da prefeitura com o terreno e energia. Uma das dificuldades enfrentadas é voltar para o Rio Grande do Norte, já que os gastos são elevados.

A solução, então, foi se reinventar. Com a impossibilidade de receber público, o grupo decidiu aderir às ‘lives’ que se tornaram moda entre os músicos e agora fazem shows online. As transmissões acontecem todo sábado e domingo às 16h30 nas páginas do Facebook e Instagram da companhia. Uma oportunidade para, novamente, Gena virar Ferrugem. 

“Tivemos a ideia de fazer as ‘lives’ para ver se conseguíamos fazer o ingresso virtual. Nas primeiras, deu uma bilheteria legal que ajudou a pagar as contas do circo. Mas agora como tem muitas acontecendo no horário da nossa, diminuiu a quantidade de contribuição”, lamenta a palhaça. 

Gena Leão carrega 33 anos de palhaçaria e 20 de circo (Foto: cedida)

Apesar disso, a solidariedade dos moradores e dos fãs está sendo importante. “A comunidade está ajudando o circo com cestas básicas e as ‘lives’ que fazemos estão ajudando a comprar o que falta e pagar a água”, diz “Ferrugem”. 

Com as famílias ficando mais tempo em casa, Gena destaca a importância da cultura para os tempos difíceis e mantêm esperança no futuro. “O que eu espero é que quando tudo passar, as pessoas procurem os circos para trazer alegrias para as suas vidas”, deseja. “Procurem valorizar mais a cultura em geral, pois sem ela a vida fica sem graça”. 

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