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Esporte

Resultado óbvio, roteiro improvável

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Em clássico tenso dentro e fora de campo, Flamengo vence o Botafogo e mantém distância tranquila na liderança do Campeonato Brasileiro

Ponto de virada: garoto Lincoln entra e muda história do jogo (Foto: Jorge R Jorge/BP Filmes)

Rodeado de tensões e intrigas dentro e fora de campo, o encontro entre Botafogo e Flamengo, válido pela 31ª rodada do Campeonato Brasileiro, pareceu ter sido escrito por um roteirista de cinema dos bons. Não pela beleza do confronto — aliás, longe disso — , mas por contar uma história de fim óbvio com um desenvolvimento repleto de acontecimentos surpreendentes.

Dias antes de a bola rolar, o clássico já havia começado nos bastidores. Dirigentes, Polícia Militar do Rio de Janeiro e até setores da mídia esportiva pressionavam para que o Botafogo cedesse 50% da carga de ingressos para os visitantes no Estádio Nilton Santos. As alegações foram de diferença de motivação das torcidas, que os donos da casa não ocupariam os seus lugares, a questões de segurança, como possíveis invasões.

Além disso, a diferença técnica gigantesca entre as duas equipes apontava para um jogo de muitos gols. Inclusive, esse era um ponto no qual as duas torcidas intimamente concordavam: a goleada rubro-negra era certa. De um lado, o líder do campeonato, com o melhor ataque e jogando um futebol envolventemente incontestável. Do outro, a segunda pior campanha do returno, um time às portas da zona de rebaixamento, cheio de dificuldades para marcar gols e uma facilidade incrível para ser vazado.

Todos os elementos para o cumprimento de um roteiro com muitas obviedades estavam postos. Um filme no qual o Steven Seagal ou o Jackie Chan seria provocado, bateria em todos os adversários até deixá-los bem acabados no chão, venceria todos os confrontos e voltaria para casa feliz, sem nenhum arranhão ou preocupações maiores. Bem, ele voltou para casa sorridente, porém não com a tranquilidade esperada.

De fato, o clássico foi uma luta. A quilômetros distantes do estádio, em outra zona da cidade, torcedores saíram no tapa e só houve perdedores. Enquanto isso, em campo, Botafogo e Flamengo fizeram um jogo extremamente truncado, com inúmeras paralisações, muitas discussões, nervosismo de ambas as partes, disputas acirradas por espaço e poucas chances criadas. Ao contrário de todos os prognósticos, o Alvinegro não facilitaria.

Na primeira etapa, os golpes mais contundentes, ainda que fracos, foram do Botafogo. A estratégia de marcação forte e saída rápida em contra-ataque parecia funcionar, o que ocasionou duas boas chances para Igor Cássio e Luiz Fernando irem às redes. Só que eles esbarraram na principal barreira da equipe de General Severiano: a total incapacidade técnica de organizar uma jogada minimamente inteligente e bem finalizada do time mal treinado por Alberto Valentim.

Ora, em um combate contra um oponente claramente mais forte, todo erro recebe o seu castigo. No segundo tempo, o Flamengo, que antes da partida dava pinta de que não se machucaria, incorporou outra personagem do cinema. Fazendo as vezes de Rocky, o lutador, depois de se ver nas cordas, um pouco sem ação diante de uma postura inesperada do adversário, o Rubro-negro resolveu reagir.

Expulsão de Luiz Fernando foi determinante para o resultado (Foto: André Durão/GloboEsporte.com)

Para isso, contou com uma enorme contribuição do rival. No minuto 55, Luiz Fernando desperdiçou um ataque perigoso do Botafogo, armou o contra-ataque flamenguista e, numa tentativa desesperada de se redimir, cometeu falta digna do segundo e merecido cartão amarelo. A partir daí, com um a mais, o Flamengo ampliou o seu domínio e encurralou o Alvinegro.

Foram praticamente 45 minutos jogados em 20 metros de campo. O Flamengo posicionou todos os seus jogadores no território adversário e o Botafogo congestionou as passagens, forçando o time de Jorge Jesus, notabilizado pelas tabelas e trocas rápidas de passes, a chutar bolas de fora da área e a tentar o jogo aéreo. Não havia sucesso. Apesar de alguns sustos, o time da estrela solitária resistia entrincheirado.

A certeza de goleada deu lugar a uma quase aceitação de que o empate era inevitável. “Jogar no Nilton Santos não é fácil mesmo”, pensavam alguns flamenguistas, lembrando que a última vitória ali havia acontecido em 2009, ano do hexa. Por sua vez, os botafoguenses entendiam que o resultado, diante das circunstâncias, estava de bom tamanho, já que manteria o clube fora da zona de rebaixamento por mais uma rodada. Não à toa Alberto Valentim protagonizou o papelão do treinador catimbeiro e ele próprio fez cera.

Então apareceu a genialidade do roteirista dessa história. No dia em que o Nilton Santos recebeu seu maior público no campeonato [mais de 23 mil torcedores presentes], quando todas as expectativas já tinham sido quebradas, os técnicos já pensavam nas coletivas pós-jogo, os torcedores já preparavam suas provocações, o Palmeiras já sentia a possibilidade real de uma aproximação na disputa pela liderança, outro ponto de virada.

Não teve gol de Gabriel, nem de Arrascaeta, que não jogou por conta de lesão no joelho. Lincoln, em sua volta depois de contusão sofrida justamente contra o Botafogo no primeiro turno, no último minuto regulamentar, fez a torcida visitante soltar o grito de gol. O jovem atacante mandou para as redes a bola recebida de Bruno Henrique, jogador mais decisivo do campeonato, em cruzamento feito após jogada de velocidade pela esquerda.

Com mais emoção do que o esperado, o Flamengo manteve a ponta da tabela protegida por oito pontos de diferença para o segundo colocado. Se dessa vez não foi com brilho, com espetáculo, pelo menos o time de Jorge Jesus demonstrou uma paciência que talvez não tivesse sido posta à prova até este ponto do campeonato. A vitória assegurou ao time de 2019 a superação de uma marca do esquadrão de 1980, a invencibilidade de 18 partidas.

Já o Botafogo chegou ao lugar pelo qual batalhou no segundo turno. São dez derrotas e apenas duas vitórias, resultados que só poderiam levá-lo à zona de rebaixamento. Embora a tabela apresente possibilidades de uma fuga dessa incômoda posição, o rendimento é extremamente preocupante e exige mudanças drásticas de postura se o clube quiser evitar o terceiro rebaixamento de sua história.

Agora as duas equipes procuram roteiristas diferentes para finalizarem as histórias a serem contadas sobre 2019. Se o Flamengo quer se afastar das surpresas e garantir o mais rápido possível o heptacampeonato brasileiro, o Botafogo precisa de alguém criativo o suficiente para conseguir modificar o rumo da narrativa que vem sendo escrita. O líder do brasileirão se aproxima do seu objetivo, mas o seu rival parece cada vez mais longe de um final feliz.

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