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Sociedade

O que é pobreza menstrual e por que devemos combatê-la?

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Jornais velhos, pedaços de pano, sacolas plásticas, itens comuns para pessoas que vivem em situação de precariedade menstrual ao redor do mundo

Karolina Grabowska/Pexels

Aos 11 anos, Meires Marinho menstruou pela primeira vez. Aos 53, deixou de menstruar, sem nunca ter utilizado um absorvente. Em 2021, com seus 68 anos, finalmente consegue falar abertamente sobre um tema que ainda é tabu: menstruação. De acordo com o estudo “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos”, no Brasil, 713 mil meninas vivem sem direito a banheiro ou chuveiro em suas casas, e mais de 4 milhões não têm acesso a itens básicos para sua higiene pessoal. 

É comum ouvir das nossas avós que, na época delas, o absorvente, na verdade, se tratava de um tecido espesso, que era trocado diversas vezes durante o dia, para conter o fluxo durante o ciclo menstrual. A história que deu início a esta reportagem não é diferente dessa, mas possui agravantes. 

Filha de lavradores, uma de 11 irmãos, a aposentada Meires Marinho não sabia nem que existiam itens apropriados para conter o sangue expelido pelo corpo durante a menstruação. “Nunca usei, não sabia nem botar. Meu pai não sabia o que era”, afirmou. 

Por muitos anos, a família de Meires nem imaginava que ela já havia passado pela menarca – primeira menstruação -, tudo mudou quando ela saiu com a mãe e outras mulheres para quebrar coco babaçu. “Eu fiquei muito tempo sentada, quando levantei estava suja. Eu chorei muito por vergonha, todas riram de mim, mas eu não sabia o porquê”, desabafou. 

Ela conta que a palavra ‘menstruação’ nem era mencionada. A mãe só conversara com ela após o episódio com as quebradeiras de coco. “Eu utilizava pedaços de pano e trocava duas vezes por dia, mas graças a Deus, nunca tive coceira nem nada. Era até melhor, porque dava para a região íntima respirar melhor”, destacou. 

Precariedade Menstrual

A professora de Direito da Estácio, Maynara Costa, explica que o termo menstruação, no Brasil, é rodeado por vários “tabus”. Esses preconceitos infundados permeiam a sexualidade e a higiene das pessoas que menstruam.

“Geralmente, quando escrito ou estudado, o que se busca é tratá-lo sempre pelo seu viés biológico, único e exclusivamente. O termo ‘pobreza ou precariedade menstrual’, foi uma categoria criada na França, que mapeou os efeitos causados pela falta de itens de higiene básica, necessários durante o ciclo menstrual. Carência essa que gera riscos à saúde das pessoas que menstruam”, esclareceu. 

Maynara ressalta ainda, que a a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), levantou dados de que 12,5% das meninas e mulheres, em fase reprodutiva, ao redor do mundo vivem na pobreza.

“O custo alto dos produtos de higiene as impede de acessar meios adequados e seguros para gerenciar seus períodos de menstruação. Por isso, muitas acabam usando folhas de jornal, sacolas plásticas, meias ou panos velhos para absorver o sangue, aumentando os riscos de infecção. Além disso, 1,25 bilhão de meninas e mulheres ao redor do mundo não têm acesso a banheiros seguros e privados e 526 milhões sequer tem banheiros disponíveis onde vivem”, ressalta. 

Conquista no Senado

Mesmo ainda sendo um tabu por muitos, o tema ‘pobreza menstrual’ entrou no radar da imprensa mundial. Para Maynara, o assunto está em debate pois existem projetos de lei sendo tramitados acerca do fornecimento de absorventes de maneira gratuita. 

A discussão chegou ao Senado por iniciativa popular, após a pressão social conseguir angariar 20 mil apoios necessários para serem analisados pela Comissão de Direitos Humanos e Participação Legislativa (CDH). Na última terça-feira (14), o Senado aprovou por unanimidade, o projeto de lei 4968/2019 que cria o Programa Nacional de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual.

“O Estado deve perceber suas margens, e compreender que a higiene íntima é um direito individual, e que deve ser garantido a partir de programas e políticas públicas. Uma vez, que este não é um problema que afeta apenas a vida privada, mas também, o sistema único de saúde, o desenvolvimento social dessas pessoas, seu acesso e permanência, a escolarização e ao trabalho”, opinou Maynara Costa. 

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