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Sociedade

Especial Mulheres: Orgulho e consciência da importância da cultura e identidade de um povo

Adriana Severo

Publicado

Nesta segunda-feira, o Elo Jornal traz para você a última matéria da série especial sobre mulheres que se destacam em diversas áreas de atuação, aqui no Rio Grande do Norte. A série de matérias celebra o Dia Internacional da Mulher, comemorado no último dia 08.

Hoje você vai conhecer a história de Ana Maria da Silva, representante da Comunidade Quilombola Lagoa do Mato/Coati, localizada em Luís Gomes, distante 446 km de Natal.

“O que mais me orgulha é ser uma mulher negra que honra sua cor e seus antecedentes. É muita responsabilidade porque tenho que lutar pelos direitos de todos, enquanto remanescentes de quilombolas. Mas agradeço a tudo que conquistei, principalmente a confiança das pessoas que represento.”

Ana Maria da slva

Quilombolas são os descendentes e remanescentes de comunidades formadas por pessoas escravizadas no Brasil. Atualmente, as comunidades quilombolas estão presentes em todo o território nacional, e nelas pode ser encontrada uma rica cultura, baseada nos ancestrais. Foi numa dessas comunidades que Ana Maria da Silva cresceu: a Comunidade Quilombola Lagoa do Mato/Coati, localizada em Luís Gomes, na região do Alto Oeste Potiguar. 

“Cresci e moro até hoje num sítio que fica distante uns 5km da cidade de Luís Gomes. As lembranças da infância são felizes. Recordo que ia pra casa dos meus avós paternos pra esperar eles chegarem da cidade com balas e pães. Eu adorava! Era na casa de Dona Michica, minha avó paterna. Conhecida e muito querida em toda a comunidade”, relembrou.

Nas boas lembranças também estão os ensinamentos. Ana Maria, que hoje é técnica em enfermagem e líder da comunidade, diz que lembra muito que “os mais velhos sempre falavam que a gente tinha uma raiz e essa raiz era a comunidade. Por isso, tenho tanto amor pelos meus ancestrais e zelo sempre para manter as tradições”, justificou.

Ana Maria da Silva é uma engajadora da preservação da cultura na comunidade do Coati/Lagoa do Mato | Foto: acervo pessoal

A comunidade Coati, no distrito de Lagoa do Mato, localizado no município de Luís Gomes, no Rio Grande do Norte, foi reconhecida como comunidade remanescente quilombola pela Fundação Cultural Palmares, há dois anos. Assim, também foi reconhecida a propriedade definitiva da terra, o que fez com que o Estado emitisse os respectivos títulos. Desde então, recebe auxílios governamentais.

“Depois do reconhecimento muita coisa mudou pra gente. Estamos recebendo vários recursos como cestas básicas, por exemplo, que vêm dos governos federal e estadual. Antes, tudo era muito mais difícil. Atualmente, a maior barreira que todo o mundo enfrenta é a Covid-19. São muitos casos aqui na cidade. Na comunidade, a gente aconselha as pessoas para ficarem em casa, mas muitos deles precisam sair pra trabalhar porque não tem renda para sobreviver”, lamentou.

Tanto ou mais dolorido de lidar com a realidade dos poucos recursos, é enfrentar o preconceito. Para Ana Maria, encarar a discriminação no dia a dia é um desafio.

“Lidar com pessoas é sempre muito difícil porque cada um pensa diferente. O preconceito é forte porque sou mulher negra e ainda mais porque sou de uma comunidade quilombola. São olhares, discriminação”. E não é só lá fora. Também enfrento questionamentos dentro da própria comunidade. Eu fico realmente triste de ver isso. Todos deveriam entender que independentemente de cor, quem nasceu e mora em locais como a Coati, é sim quilombola e deve se orgulhar por isso. Por ser resistência. O que eu mais quero é ver todos se reconhecendo em suas origens”, ressaltou. 

Apesar de todas as dificuldades, Ana não se abala e ressalta ser muito grata por ter sido escolhida como líder da comunidade. “O que mais me orgulha é ser uma mulher negra que honra sua cor e seus antecedentes. É muita responsabilidade porque tenho que lutar pelos nossos direitos, enquanto remanescentes de quilombolas. Mas agradeço a tudo que conquistei, principalmente a confiança das pessoas que represento”, afirmou.

Outro motivo de alegria é o grupo caboclo Treme Terra que existe há seis anos. O grupo é formado por jovens e é referência na preservação das tradições quilombolas. 

“O grupo atualmente está parado devido a pandemia. Porém, continua firme e forte na caminhada porque é muito importante para nós, que amamos e valorizamos a nossa cultura”, explicou. 

Dia Internacional da Mulher

Para Ana Maria, o dia da mulher não deveria ser comemorado apenas em uma data específica.  “Todos os dias é dia da mulher. Da mulher que luta, que enfrenta os problemas do dia a dia com coragem. Principalmente a mulher negra, que além de enfrentar tantos obstáculos por ser mulher, ainda tem um desafio maior que é o preconceito que infelizmente ainda temos que combater todos os dias”, destacou.

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