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Sociedade

Psicóloga analisa cultura do estupro no Brasil: “podemos modificá-la”

A cada oito minutos, uma mulher é vítima de estupro no país; especialista reitera que educação e políticas públicas são a chave para rechaçar esse fenômen

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Foto: Pexels

Em uma entrevista recente, a diretora global da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, alertou que a violência contra a mulher é tão devastadora quanto o coronavírus. Na semana do Dia Internacional da Mulher, a psicóloga Renata Mafra, coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, analisa a cultura do estupro no Brasil e de que forma combatê-la.

Segundo a psicóloga, a cultura do estupro é um conjunto complexo de crenças que encorajam agressões sexuais masculinas e sustentam a violência contra a mulher. “A cultura do estupro tolera a violência física e emocional contra a mulher como normal. Em uma cultura do estupro, tanto homens como mulheres assumem que a violência sexual é um fato da vida, tão inevitável quanto a morte. Mas o termo cultura do estupro vem justamente para demonstrar que não é algo natural, e sim cultural. Se é cultural, é porque foi criada e se criamos, podemos modificá-la”, enfatiza.

Também mestre em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência, Renata esclarece que o termo não é novo, pelo contrário, é combatido há algumas décadas. “Já nos anos 1970, a cultura do estupro era tratada em movimentos feministas americanos; em uma segunda onda, veio para apontar comportamentos sutis e explícitos que silenciam ou relativizam a violência sexual contra a mulher”, esclarece a psicóloga. 

Renata lembra que no Brasil, o termo ganhou força pelo novo movimento feminista, após um estupro coletivo ocorrido numa favela no Rio de Janeiro, em maio de 2016. “Nesse fato, uma menina de 16 anos foi violentada por 33 homens, cuja ação coletiva foi filmada e fotografada, e repercutida na imprensa e nas redes sociais”.

De acordo com a 14a edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 foi registrado um estupro a cada oito minutos no país. Foram 66.123 ocorrências registradas, tendo em sua maioria mulheres como vítimas (85,7%) de pessoas conhecidas, 84,1% dos casos. Renata ressalta ainda que, de acordo com estudo feito pelo Sistema de Informações de Agravados de Notificação (Sinam), do Ministério da Saúde, apenas 10% dos casos chegam ao conhecimento da polícia. 

Sentimento de culpa e educação

A psicóloga observa que o que pode levar a uma porcentagem tão baixa de denúncias é o fato de as mulheres serem tomadas pelo sentimento de culpa e de vergonha.  

“A cultura do estupro coloca na mulher a responsabilidade pelo ocorrido, com pensamentos como ‘mas também, com essa roupa’, ‘aposto que você bebeu’, ‘andando por esses lugares sozinha, estava pedindo’; ‘você não pode contar isso, afinal, é seu padrasto, seu pai… ele pode ser preso’. As mulheres também têm a cultura do estupro internalizada e acabam reproduzindo dentro de si o eco da sociedade. Sem contar a forma como são tratadas pelas autoridades ao denunciarem, quando não se trata de uma delegacia ou serviço especializado de atendimento à mulher”, explica.

Para Renata, é fundamental identificar comportamentos que reforçam a cultura do estupro por meio da educação para construir um caminho melhor para as mulheres no país. “Tanto no ensino formal nas escolas, quanto nas famílias e no local de trabalho. Além de políticas públicas que trabalhem de modo a conscientizar a população, ampliando os locais de acesso à denúncia e atendimento”, afirma a especialista. 

A coordenadora de Psicologia da Estácio acrescenta que é preciso ter em mente que o conceito de estupro é amplo no código penal brasileiro, sendo considerado o ato de constranger alguém mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.

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