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Saúde

O que muda durante a pandemia na vida de quem mora no campo?

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Longe dos grandes centros urbanos, a aparente normalidade não apaga os efeitos que a pandemia trouxe para a vida das famílias que residem na zona rural

Por Camila Pinto

Lagoa dos Bezerros | Foto: Camila Pinto

Sentada no alpendre do sítio dos meus avós, em Lagoa dos Bezerros, comunidade rural do município de Bom Jesus, contemplo em silêncio a comunidade onde cresci e vivi grande parte da minha vida antes de me mudar para Natal. Aqui, os prédios são substituídos por cajueiros e eucaliptos. O asfalto, pela estrada de terra. As várias pessoas nas calçadas e o tráfego intenso de carros, pelo vai e vem solitário de pessoas, automóveis, carroças e cavalos no decorrer do dia.

Durante os oito meses que estive isolada nesse sítio, acompanhei de longe o número de casos da Covid-19 crescer e se espalhar pelo país. Vi os 529 casos se transformarem em mais de 6 milhões, enquanto as mortes pularam de 4 para mais de 180 mil. Assisti o que eu achava que seria um mês de quarentena, no máximo, se transformar em oito; março de repente chegar em dezembro.

Ao meu redor, no entanto, a vida não parece muito diferente de como era nas férias ou nos finais de semana. As mesmas pessoas ainda passam na estrada, indo trabalhar nos roçados e casas de farinha, vendendo pão, leite e quaisquer outros produtos de porta em porta, visitando vizinhos, compadres e comadres no finalzinho da tarde. É claro que nem tudo está igual, afinal, há uma pandemia matando pessoas lá fora, mudando nossos hábitos, fazendo-nos usar máscaras. Tudo parece igual e diferente ao mesmo tempo. Um paradoxo que me levou à pergunta: para além daquela normalidade calma e silenciosa, o que havia mudado com a pandemia e o isolamento social na vida dessas pessoas?

Para respondê-la, conversei com algumas pessoas sobre o que aconteceu em suas vidas durante esse período. Minha primeira parada foi na casa de uma vizinha que optou por não se identificar e que aqui chamarei de Maria.

Sentada no pequeno alpendre de sua casa, Maria (45) me conta um pouco sobre como ela e seus dois filhos, de 13 e 5 anos, têm passado por esse período de quarentena. Ao falar sobre o que mudou desde então, ela parece compartilhar da mesma sensação que tenho de que não há algo específico que mencionar, porém aos poucos as mudanças vão imergindo em suas lembranças.

“Não, não mudou muita coisa não. Acho que sei lá… Não pode sair mais… ficar em casa. É difícil ir até em uma feira no domingo. Sempre com medo, não podia assistir um jornal, que dava mais medo nas pessoas”, comenta.

 O que me chamou mais atenção em seu relato, no entanto, foi a situação escolar das crianças. “Atrapalhou foi tudo as aulas, essa pandemia”, reflete Maria.

O filho mais velho chegou a ter aulas em formato remoto e atualmente vai até a escola duas vezes por semana no Sítio Santa Cruz, distrito vizinho que pertence a Vera Cruz, buscar atividades para fazer em casa. Já a mais nova, que cursa o primeiro ano da pré-escola em Félix Lopes, outra comunidade rural vizinha, dessa vez de Macaíba, não teve uma aula sequer desde o início da pandemia.

“Quando parou, pronto. Porque até os professores que eram tudo contratado, o prefeito de Macaíba demitiu eles. Até os que são concursados não deram aula. Mas ela estudava com uma professora que era contratada e aí ele despediu. Não teve aula uma vez, não teve, disse.

Sem previsão de retorno das aulas, Maria acha que os alunos terão que repetir o ano quando voltarem, mas que não tem certeza. A crianças, porém, parecem nem sentir a diferença, adaptando-se bem à nova rotina. “Ele entende mais que a outra. Ela nem lembra mais dos colegas, pelo amor de deus! Passou um e eu ‘Olha fulano!’ e ela ‘Quem é fulano?’”, Maria conta aos risos sobre o dia que viu um coleguinha da filha passar na estrada e a menina não o reconheceu.

Na outra ponta da estrada, na casa que a aposentada Ana Maria (58) divide com o marido e a filha mais nova, a rotina também não parece tão diferente.

“A gente aqui não sai muito. Vive mais em casa. Só sai mais para feira ou para resolver alguma coisa em Bom Jesus. Mas que é difícil, é. Porque quando fecha tudo, a gente fica à mercê dos mercados, não pode comprar na feira-livre”, conta Ana, que não parece tão assustada com a pandemia. “O povo faz um assombro, tem medo, isso e aquilo outro, mas eu não tenho, não. Sabe por quê? Porque se a gente tiver que ter, a gente tem, né?”, conta.

Luana (19), filha de Ana, também enfrentou dificuldades com relação às aulas em formato remoto. “Online foi bem difícil. A gente não conseguia acompanhar diretamente porque os assuntos eram mais complexos, que era bom fazer presencial”, contou a estudante que, recentemente, voltou a ter aulas presenciais do curso de enfermagem. Luana demonstrou ainda indignação com o descaso que as autoridades tiveram com as aulas, comparado a outros setores. “Muita gente não pensou nos estudos, pensou mais em política, como aconteceu; as salas de aula vazias e as caminhadas cheias de gente”, concluiu. Sua mãe também chega a comentar o aumento no número de casos no município depois das eleições municipais.

Quando perguntei às três mulheres sobre o que elas esperam dos próximos meses, elas não se mostraram muito confiantes sobre uma rápida volta da vida a normalidade. “Eu acho que não vai mudar muita coisa, não”, reflete Maria, relembrando pandemias passadas que duraram mais do que um ano para serem controladas. “Espero que [a vacina] chegue logo, pelo menos pra tranquilizar algumas pessoas e a nossa vida voltar ao normal”, comenta Luana, que enfatiza ainda assim, cuidados ainda serão necessários. “Eu acho que perto não está de terminar, não. Mas eu espero que daqui para frente as coisas melhorem”, deseja Ana.

Unidade de Atenção Básica em Saúde de Lagoa dos Bezerros | Foto: Camila Pinto

A pandemia em Bom Jesus

O munícipio que conta com pouco mais de nove mil habitantes, vê o número de infectados com Covid-19 crescer após as eleições. Até o momento são 248 casos confirmados, sendo 70 deles após o pleito no primeiro turno. Nos distritos rurais do munícipio, são 31 infectados, sendo dois deles em Lagoa dos Bezerros. Em 19 de novembro, o boletim municipal registrava 27 casos nesses locais. Bom Jesus registra 7 óbitos.

Por mensagem, conversei com a enfermeira Roberta Cristina, que integra a equipe médica responsável pelo atendimento nas comunidades rurais do município. Segundo ela, a Secretaria de Saúde junto com a equipe tem acompanhado os casos suspeitos e positivados, além realizar ações de prevenção e conscientização sobre o vírus, com a distribuição de máscaras, panfletagem e dedetização do prédio de Atenção Básica. Testes rápidos também têm sido distribuídos para a população. Ela também informou que os casos confirmados em Lagoa dos Bezerros, ambos do sexo masculino, apresentaram sintomas leves e passaram o período de quarentena em casa, sendo assistidos pela equipe médica.

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