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Esporte

A história do futebol feminino no RN e a necessidade de (r)evolução

Andre Samora e Victoria Alves

Publicado

A modalidade no estado ainda é um reflexo do passado invisibilizado, mas o futuro pode e deve trazer bons frutos

Atleta com a bola. Foto: GI / Getty Images

A história do futebol feminino do Rio Grande do Norte é resumida pela palavra desinformação. São muitas as histórias que a maior parte da população não conhece. O estado possui nomes importantes, como Jandira Carvalho, uma primeira-dama da república que foi jogadora de futebol, e Suzana Ferreira, única potiguar que jogou uma Copa do Mundo Feminina. Jogos? Não tem nenhuma cobertura da mídia hegemônica do estado.

Em 1915, Café Filho fundou o tradicional Alecrim Futebol Clube e também criou o Centro Esportivo Natalense, o primeiro time de futebol feminino do RN. Em 1919, ele se apaixonou pela volante Jandira Carvalho. Café se tornou presidente do Brasil em 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, a pessoa que em 14 de abril de 1941 assinou o artigo 54 do decreto-lei 3.199, que afirmava “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Ou seja, Café, que tentou ajudar no desenvolvimento da modalidade em nosso estado, não teve coragem de legalizar a categoria em todo o país após a morte de Getúlio, aquele que o proibiu. Em 1983, a regulamentação veio após quatro décadas de proibição da categoria, por volta de 42 anos depois.

Na década de 1990, Suzana Ferreira, nascida na Zona Norte de Natal, queria ser jogadora de futebol. Porém, não existia equipe feminina no Rio Grande do Norte, e ela teve que ir para outros estados para construir sua história. Foi campeã brasileira de 1997 com o São Paulo e conquistou o Sul-Americano de 1998 com a seleção brasileira. Porém, seu auge foi na Copa do Mundo de 1999, quando o Brasil ficou com o 3º lugar. Em 2000, ficou com o 4º lugar na Olimpíada de Sydney. Foram 20 jogos disputados com a camisa canarinha e 1 gol feito. Em 2005, Suzana queria se aposentar jogando em terras potiguares, mas ainda não existia o esporte aqui, teve que parar sem jogar no seu próprio estado.

Em 2007, com os jogos Pan-Americanos do Rio, a TV Globo transmitiu a disputa do ouro do futebol feminino entre Brasil e Estados Unidos. Foram mais de 70 mil presentes no Maracanã para ver a vitória da Seleção Brasileira por 5 a 0. Esse foi o marco para o crescimento do esporte em todo o território nacional. Foi necessário a exibição na principal emissora do Brasil para se criar times no Rio Grande do Norte.  

Com a criação de um campeonato estadual em 2007, os principais clubes masculinos se interessaram em fazer equipes femininas, e o ABC foi o primeiro campeão. Em 2012, tentando se tornar um time com importância regional e talvez até nacional, o América-RN contratou Formiga, um dos maiores nomes da história. O primeiro objetivo deu certo, o Alvirrubro conquistou seu primeiro título potiguar. Porém, com a eliminação prematura nas oitavas da Copa do Brasil, abandonou o projeto e nunca mais formou uma equipe. Desde lá, a modalidade no Rio Grande do Norte foi caindo. Em 2013, apenas dois clubes jogaram a competição. Em 2014 e 2016, ninguém se interessou em jogar e a competição não aconteceu.

Já em 2018, foram apenas 3 times, e nessa edição, a Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF) gastou R$13.068,72 na competição. Esse valor refere-se aos custos operacionais com a arbitragem e com a confecção do troféu e das medalhas. O gasto foi tão irrisório que acabou sendo superado até mesmo pelo investimento em telefonia (fixa/móvel), onde a entidade gastou R$16.800,71. Quem organiza o esporte local não tem interesse em investir na divulgação do evento ou, com ajuda de custos aos clubes, se investissem, aumentaria a competitividade no estado. No ano passado, até teve um grande aumento de 3 para 7 equipes. Porém, há mais de 7 anos que ABC e América não participam, o que ajudaria no interesse dos torcedores também no feminino, já que são os maiores clubes do Rio Grande do Norte. Com a pandemia, muitos times estão com dificuldades financeiras e ainda não temos nenhuma informação da edição de 2020 do campeonato estadual.

A sensação é que a modalidade no RN nunca vai sair da mediocridade, por conta da federação e por clubes que não mostram interesse, mas o Cruzeiro de Macaíba é a esperança de um futuro melhor. Originalmente do futebol masculino, o Azulão decidiu criar uma equipe feminino em 2017 e já estreou como vice-campeão estadual. Em 2018 e 2019, foi campeão e hoje é o melhor time do Rio Grande do Norte. Com a conquista, garantiu uma vaga na Série A2, a segunda divisão do Brasileiro. Nas duas ocasiões, mostrou uma grande competitividade e quase conseguiu uma vaga na segunda fase da competição. Neste ano, chegou a ganhar do Sport Recife.

Cruzeiro de Macaíba na Série A2 do Brasileiro 2020.
Foto: Ana Lourdes Bal/ Universidade do Esporte.

“Agora precisamos vencer o estadual de 2020 para voltar para a Série A2 do ano que vem, mas pensando a longo prazo, nossa maior meta é jogar a primeira divisão”, conta Júlia Alves, auxiliar técnica e assessora do clube. Júlia acredita ainda que a dificuldade financeira e a falta da imprensa andam juntos: “A divulgação da mídia chama atenção das empresas, o que facilita na busca de patrocinadores e apoio. Sem os dois, fica difícil o futebol crescer”, conclui.

A verdade é que mesmo que a equipe de Macaíba tenha um bom elenco, com muitas jogadoras da seleção da UFRN, o maior problema ainda é financeiro. Uma pesquisa organizada pelo Sindicato Internacional de Atletas do Futebol (FIFPro), em parceria com a Universidade de Manchester, mostra que 49,5% das jogadoras não recebem salários dos seus times, a não ser eventualmente ajuda no transporte ou em moradia. O estudo teve a participação de 3.600 atletas que atuam nos mais diversos países da América, Europa, África e Ásia. O objetivo, segundo a própria descrição da pesquisa, era “entender as necessidades das jogadoras de futebol e dar voz a elas, que são tão silenciadas”.

Larissa Almeida, atleta do Cruzeiro desde o início do projeto, reafirma os dados da pesquisa: “A questão financeira é um problema e atinge diretamente várias vertentes, incluindo desempenho. Precisamos ter outra profissão ou ocupação, não podemos dar total atenção para o esporte”, salienta a jogadora.

Nossa equipe entrevistou Emídio Júnior (PL), prefeito eleito de Macaíba, para saber se terá ajuda financeira do poder público no clube: “O melhor time do estado é da nossa cidade, o objetivo da nossa gestão é a Prefeitura de Macaíba patrocinar o Cruzeiro. Também vamos conversar com a iniciativa privada para melhorar ainda mais a equipe, que já é um exemplo no estado, e agora precisa escrever seu nome a nível nacional”, afirma Emídio, prefeito de Macaíba a partir de 2021.

Durante os jogos em casa na Série A2, apenas a Rádio Universitária esteve presente entre todos os meios de comunicação. Isso só foi possível devido ao projeto de Extensão da UFRN, Universidade de Esporte, que além da transmissão, também levou a fotógrafa Ana Lourdes Bal para a cobertura nas redes sociais.

“O tratamento que a imprensa natalense dá ao futebol feminino ainda deixa a desejar. Os jogos que o Cruzeiro de Macaíba disputou em casa, na Arena das Dunas, pela série A2, caíram em datas que não havia outros jogos de futebol na capital para dividir a atenção da imprensa e, mesmo assim, apenas nossa equipe de rádio esteve presente para fazer a transmissão das partidas”, garante a comentarista Taís Viviane. “Além disso, as notícias nacionais e internacionais do esporte raramente chegam aos programas esportivos natalense e não é raro que até mesmo a seleção brasileira seja esquecida ainda que a modalidade esteja em franca ascensão no mundo inteiro”, conclui Taís. A comentarista esportiva representa a Rádio Universitária e é a primeira mulher a alcançar esse feito na rádio potiguar.

A dificuldade das atletas e a falta de certezas na jornada do futebol feminino no nosso estado faz com que muitas delas se aventurem em viajar à procura de novas oportunidades em equipes femininas de outros estados brasileiros. Como aconteceu com Suzana Ferreira na década de 90, e poucos anos atrás com a também potiguar, Antonia Silva. Ela vendo a situação da categoria no RN, resolveu tentar a vida em São Paulo. A atleta conseguiu algumas oportunidades por lá e acabou ganhando também a chance de trabalhar para um time europeu. Antonia defende hoje o Madrid CFF, equipe feminina que tem atuação na Liga Espanhola. A defensora já chegou a ser convocada para a seleção feminina e tem grandes chances de voltar a usar a amarelinha. 

A iniciativa privada desde a Copa do Mundo Feminina de 2019, ocorrida na França, tem feito certo barulho para buscar novas parcerias para o ‘futfem’ e, dessa união, apoiarem as bases da categoria feminina que até hoje ainda são muito defasadas e necessitadas de recursos. O apoio é bem aceito e significativo. O crescimento influencia muitas vidas e sonhos, além de também mostrar a importância do desenvolvimento sociocultural, transformando o país do futebol em um país de apoio a todas as modalidades, independente de gênero, propondo assim, a igualdade e diversidade regional em nossa cultura e em nosso esporte.

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