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Sociedade

Transexuais: a luta por identidade

Sthefanny Ariane

Publicado

Mulher e homem trans contam sobre a batalha por reconhecimento e ensinam a importância da autenticidade e resiliência

Ser “delicada” como uma flor não significa fragilidade. A resistência se faz presente na capacidade de resiliência e persistência e não necessariamente pela força. Nesse caminho, muitas vezes solitário, ser corajoso é saber seguir o próprio roteiro sem se importar com o que os outros vão pensar ou tentarão fazer para que você desista do seu sonho.

“Ser aquilo que você é, é um ato de plenitude. É um ato político. Brotar nesse asfalto tão duro e aspereza da vida”, conta Emilly Mel Fernandes de Souza, uma mulher trans, por direito e registro, de 30 anos. Como uma flor que cresce apesar de tudo e todos, desde muito pequena, entendeu que ser transgênero no país que mais mata LGBTQIAP+ (Lésbicas, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais e mais) não seria fácil. “Eu sempre lutei e luto muito pela minha vida e pela minha existência”, desabafou Emilly.

Segundo dados publicados pela ONG Transgender Europe (TGEu) em novembro de 2016, o Brasil registrou mais que o triplo de assassinatos do segundo colocado, o México, onde foram contabilizadas 256 mortes entre janeiro de 2008 e julho de 2016. Em uma pesquisa mais recente, de 2018, o nosso país continuou liderando o ranking, permanecendo com o triplo de mortes que o segundo colocado da estatística que escancara como algumas vidas são encaradas por uma sociedade preconceituosa, mas que não admite.

Emilly Mel é paulistana na naturalidade e potiguar de coração. Filha do vidraceiro, Francisco, e da dona de casa, Maria. Ela é a irmã do meio de um grupo de seis irmãos (quatro mulheres e dois homens). Foi a primeira da família que conseguiu ingressar no ensino superior, além de ser a primeira mulher trans a se formar e entrar no mestrado de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Emilly Mel | Foto: Acervo pessoal

Mas seu pioneirismo vai além da academia, no que diz respeito a seguir o próprio percurso apesar dos pesares, a força se faz mais presente na sua sensibilidade e capacidade de dar seu melhor para o mundo mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

“As maiores dificuldades que encontro são com relação a transfobia estrutural. O jeito que as pessoas me olham e me encaram, a forma que eu sou vista pela sociedade, o fato de não ser reconhecida como uma mulher ou pela minha profissão, ser impedida de usar espaços públicos como, por exemplo, o banheiro feminino são algumas das dificuldades que encontro no meu dia a dia”, contou Emilly.

As adversidades da rotina não abalam sua generosidade ou seu olhar artístico. “Quem me conhece sabe: quem não ganhou um Tsuru meu, ainda vai ganhar”, disse Mel. Ela vê a arte como uma forma possível de lidar com o caos do mundo, por isso, ocupa seu tempo livre com os origamis. “O tsuru é a encarnação de tudo que há de bom no mundo. Lá no Japão existe uma tradição, eles fazem mil tsurus e saem entregando, né?! Porque fazendo isso você está desejando e concretizando tudo que têm de bom”, explicou Emilly (que me prometeu um para qualquer dia).

As batalhas internas e externas

Após perceberem que nasceram com um gênero diferente do que foi atribuído, essas pessoas passam a enfrentar diversos desafios para viver e assumir sua identidade. Além do risco de sofrerem pela violência do preconceito, seja ele físico ou emocional.

Izacc Silva tem 24 anos, mora em São Miguel do Gostoso e trabalha como recepcionista de uma pousada. Ele descobriu sua sexualidade aos 16 anos, e sua identidade de gênero somente após os 20 anos. “Em um dos meus relacionamentos… a menina não aceitava que eu usasse ou desse preferência às coisas masculinas. Eu era bem feminina e usava coisas de mulher, mas não me sentia feliz, não me sentia eu mesmo”, desabafou Izacc.

Izacc Silva | Foto: Reprodução

“Minha rotina é cheia de dificuldades e desafios, mas nada é mais difícil do que ouvir que me falta algo. As pessoas estão sempre me lembrando que não tenho um pênis ou que preciso de um para ser homem. Isso não é fácil”, acrescentou. Apesar das adversidades, Izacc consegue seguir em frente com o apoio da família, que ainda está se adaptando às mudanças, como: chamar ele no masculino.

Descobrir a própria identidade foi um processo de empoderamento e amor próprio para Izaac. Ele precisou ter força e confiança em si mesmo para lidar com os julgamentos das pessoas. “Faz um ano que comecei o processo de transição, também, faz um ano que estou indo ao psicólogo e me sinto mais feliz. O próximo passo é ir ao endocrinologista para começar a tomar os hormônios e, finalmente, ter o corpo que eu tanto sonho”, falou empolgado.

Respeitar as diferenças humanas gera conexões entre as pessoas e crescimento em vários setores da sociedade. A beleza da vida está na diversidade, mas, principalmente, em ser quem realmente é. Tanto Emilly como Izacc, se sentem mais felizes por serem quem são e, apesar dos olhares preconceituosos, oferecem sua melhor versão para quem tem a oportunidade de conhecê-los. É assim que eles resistem: não desistindo da própria autenticidade.

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