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Opinião

Mídia e pobreza: representação e consequências

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Uma possível resposta para entender esse contexto pode ser obtida através da análise dos tipos de representações das classes carentes que a mídia apresenta

Por Frank Düesberg

A pobreza é um problema econômico e social gravíssimo que atinge milhões de pessoas no mundo, na medida em que conduz a consequências severas e expõe determinados grupos sociais a condições de vida desumanas. A má distribuição de recursos é um desafio que acompanha a humanidade desde sua origem mais remota. A modernização da tecnologia e a possibilidade de produção de excedentes fez aumentar a expectativa de que a pobreza pudesse ser erradicada do planeta um dia. Infelizmente, até hoje isso não aconteceu.

De acordo com a lista da revista Forbes, o Brasil tem hoje 238 bilionários, que juntos barganham uma fortuna de R$ 1,6 trilhão, contra cerca de 52 milhões de pessoas que sobrevivem em condições de pobreza. Outros 13 milhões subsistem sob o limiar de pobreza extrema, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não é possível conceber qualquer ética que justifique esse absurdo, mas apesar disso, o sistema e, consequentemente, a situação de carência extrema, se perpetuam.  

Desse modo, é pertinente questionar o papel que a mídia desempenha nesse contexto. Uma possível resposta pode ser obtida através da análise dos tipos de representações das classes carentes que a mídia apresenta. Grosso modo, a pobreza é descrita de três formas:

  • Primeiro, de maneira factual, como se fosse uma condição específica à qual determinado número de pessoas é submetido de acordo com certos critérios, como renda, por exemplo;
  • Segundo, como consequência das ações humanas, quando a mídia mostra a maneira como a sociedade lida com o problema e a possibilidade de melhorar ou piorar as circunstâncias;
  • Finalmente, a pobreza é colocada como uma entidade perene que age sobre a sociedade, como se tivesse vida própria e direito de existência, cujas consequências devem ser acatadas naturalmente como algo imanente e de pouca probabilidade de mudança.

Essas três representações trazem, cada uma, consequências específicas consideráveis nas formas como a mídia lida com a pobreza. O primeiro formato dissimula essa condição social, porque a camufla por trás de dados numéricos, em linha com a renda percebida e outros fatores econômicos. Nesse aspecto, ela é apresentada como uma referência numerária, que negligencia o estreito encadeamento de problemas incidentes na relação que existe entre pobreza e exclusão social, criminalização, flagelo humano.

Levada ao extremo, essa atitude foi exposta pela filósofa Hannah Arendt em 1961, em um processo contra o nazista Adolf Eichmann. O trabalho dele tinha sido a organização da logística de transportes de milhões de judeus para a morte nos campos de concentração. Eichmann se defendeu, dizendo que nunca fez mal a ninguém, que era apenas um burocrata a seguir ordens e a tratar de questões organizacionais. A isso, Arendt chamou de ‘banalidade do mal’.

Aqui no Brasil, enquanto cantava a música ‘Nordeste Independente’ de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, a cantora Elba Ramalho disparou em um de seus shows: “Eles (os políticos) pegam o avião, vão lá no Nordeste, sobrevoam a região, se certificam que há seca realmente no Nordeste. E entra ano sai ano e o sertão continua ao Deus dará.”

Assim, a pobreza causada pela seca é alienada e torna-se apenas um instrumento político que traz à tona a falta de empatia e de atenção dos políticos em relação à questão, além de expor a completa ausência de vontade de alterar essa conjuntura.

A segunda linha de apresentação da pobreza refere-se, dentre entre outros, ao pensamento da meritocracia. A meritocracia incentiva os ‘vencedores’ a atribuírem o ‘sucesso’ (principalmente dinheiro, poder ou fama) aos próprios esforços, em detrimento dos que não conseguem trilhar um caminho parecido. Os bem-sucedidos raramente atribuem o sucesso à sorte e, quanto maiores as gratificações das conquistas, mais difícil parece ser permanecer humilde. O pior é que, não apenas acreditam merecer o sucesso, como também estão convencidos de que os malsucedidos merecem o fracasso.

Essa talvez seja a forma mais inapropriada de lidar com a pobreza, já que o pobre é apontado como um indivíduo ‘defeituoso’, malsucedido e que precisa lidar com um sentimento de culpa, como se a conjuntura em que vive fosse de sua autoria.

Isso leva a consequências muito concretas como, por exemplo, o deslocamento do espaço de grupos que vivem na pobreza para as periferias, num processo de segregação que os colocam em um lugar de coação, estigma, confinamento e criminalização. Assim, o pobre muitas vezes é considerado um bandido em potencial e tratado como integrante de uma classe inferior. Frequentemente é submetido a políticas higienistas. Há supressão de direitos e, quando recebem algum auxílio, é de forma condescendente e humilhante.

O terceiro formato se aproxima de características arraigadas ao contexto da religião. A pobreza, como entidade, serve de aparato para castigar, criminalizar ou prejudicar o indivíduo. Pessoas sem escrúpulos se aproveitam disso para benefícios próprios e justificam suas atitudes como um direito dado por forças divinas. Sem meios para se defender e com ataques de todos os lados (do sistema legal, da polícia ou da sociedade em geral), a situação tende a piorar.

Nada disso é novo e me remete à situação dos pobres da Idade Média, na Europa. Na época, a nobreza explorava tanto os agricultores que chegou um momento em que os próprios nobres se prejudicaram por falta de produção agrícola. Assim, foi preciso melhorar a situação dos miseráveis para poder voltar a se beneficiar do trabalho deles.  Daqueles tempos pode-se traçar um paralelo com a ajuda dada aos necessitados do início da pandemia no Brasil, no valor de R$ 600. Aliviar um pouco o desespero do pobre não quer necessariamente dizer que o intuito é ampará-lo. Pode ser simplesmente o medo de um colapso do sistema e uma mudança de valores e das posições de poder.

Diante disso, o que podemos fazer?

Uma opção é aprimorar os conhecimentos da população sobre direitos humanos, democracia e cidadania, já durante a formação inicial escolar. É importante entender que não se trata apenas da redução da desigualdade econômica, mas de um cenário onde todos são importantes e valorizados. Esse caminho, embora não seja novo, é pouco explorado, uma vez que os poderosos preferem deixar a massa da população na ignorância para aumentar a facilidade de manipulação. Podem até gastar um pouco com medidas extraordinárias, mas no final das contas sempre estão ganhando.

Um rumo intermediário e muito aplicado, porém com resultados divergentes, é o crescimento econômico. Vejamos a riqueza suíça, baseada, principalmente, no setor financeiro. Enxergo a Suíça como aquela maioria dos bilionários brasileiros, oriundos do mesmo setor e que se beneficiam, sem dúvida nenhuma, da exploração dos pobres.

Assim, a situação se repete em pequena ou grande escala, onde, por exemplo, os países em desenvolvimento devem na faixa dos US$ 100 bilhões aos bancos e são asfixiados continuamente, há décadas, somente pelos juros. Para finalizar, podemos questionar: é possível termos um modelo suíço no mundo inteiro?

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