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Opinião

Há cura em meio ao caos

Beatriz Nascimento e Sthefanny Ariane

Publicado

Jovem descobre câncer testicular e o vence durante a pandemia

“Eu não quero música triste’, ele disse antes de começarmos a raspar o cabelo. Aí colocou Bruno Mars para tocar, e dançou, antes de sentar e me entregar a máquina.”

Anderson em um dia de quimioterapia |
Foto: Acervo Pessoal

Esse é um fragmento de um relato que Jessica Vameci, estudante de jornalismo e noiva de Anderson Camilo, fez em seu perfil do instagram. Junto com o texto acompanham fotos e a lembrança de um dos pequenos momentos que poderiam ser tristes, mas que se tornaram inesquecíveis na vida desse casal.

Para si mesma naquele instante e, depois, por meio da publicação na rede social, Jessica o agradece por ter ressignificado o belo e reformatado os conceitos padronizados do mundo que ela vive (ou costumava viver). Graças a ele, ela reaprendeu a enxergar, a amar e perceber a vida. E ele? Nos comentários da postagem, deixa escancarado seu amor por ela “com você ao meu lado tudo se tornou muito fácil. Obrigado por tanto, meu amor!” declarou.

Anderson, é um estudante de Educação Física, de 26 anos, que descobriu em Abril deste ano, em meio ao isolamento social e a Covid-19 um nódulo no seu testículo esquerdo. A partir daí, sua batalha estava travada e ele escolheu lutar. Precisou passar por muitos médicos, exames, cirurgias e tudo sozinho, para então, três meses depois receber o diagnóstico: câncer testicular.

A maioria dos tumores cresce de forma lenta, levando cerca de 15 anos para atingir 1 cm³ – que na maioria das vezes não chega a dar sinais durante a vida e nem a ameaçar a saúde do homem. Porém, a detecção precoce do câncer é a melhor estratégia para encontrar o tumor na fase inicial, possibilitando uma melhor chance de tratamento. Anderson nos conta que descobriu o nódulo de modo aleatório, “estava em casa e senti um leve desconforto no testículo esquerdo. No banho resolvi fazer o autoexame e identifiquei o nódulo. Na hora surtei um pouco, mas só nesse momento – quando eu senti isso, me deu logo um estalo para ir buscar um urologista”, explicou.

Apesar de tanto desgaste e lutas, Anderson conseguiu um diagnóstico prematuro, mas ainda assim houve um momento específico em que teve medo. Medo porque a palavra câncer às vezes soa como uma sentença de um final trágico. Medo, principalmente, porque um colega que também havia sido diagnosticado com câncer testicular e, estava se recuperando de uma cirurgia, sofreu uma convulsão em casa, passou alguns dias internado, mas não resistiu. “Tive uns instantes de aflição com toda a situação, e eu ainda estava para fazer a cirurgia. Mas fiz uso da minha fé e retornei para o mesmo pensamento de antes, de que tudo ficaria bem”, contou Camilo.

Sua noiva nos conta que a parte mais preocupante de todo o processo foi lidar com a doença em meio a uma pandemia, “ele teve um prognóstico bom desde o início, então, mesmo sabendo que seria difícil enfrentar a quimioterapia, o câncer em si não me preocupou tanto quanto o fato dele ficar vulnerável por causa da pandemia. Ele, que sempre foi saudável e ativo, de repente se encontrou dentro de um grupo de alto risco, imunidade baixa, e precisou ir pra um hospital cheio quase todos os dias, onde todos os outros pacientes eram tão ou mais vulneráveis que ele. Foi muita exposição, mas não nos contaminamos, graças a Deus.”

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer – INCA até agosto deste ano, cerca de 65.840 brasileiros com cromossomos sexuais XY, descobriram um nódulo nos testículos e hoje, Anderson Camilo, faz parte dessa estatística.

A idade avançada é um grande fator de risco para esse tipo de câncer, mais do que qualquer outro tipo. O câncer de próstata atinge aproximadamente 75% dos idosos, a partir dos 65 anos. A maior taxa de incidência observada através do instituto nos últimos anos, é devido a evolução dos métodos para diagnóstico, pela melhoria dos sistemas de informação do país e pelo aumento na expectativa de vida. Ainda assim, em 2018, o Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM estima que 15.576 homens morreram por causa da doença.

 Foto publicada por Anderson e Jessica em seus perfis na redes social Instagram | Reprodução

Recentemente, Anderson compartilhou na sua rede social uma mensagem de agradecimento à sua noiva com uma sequência das mesmas fotos postadas por ela, mostrando a intensidade do sentimento envolvido do momento compartilhado pelos dois. Um pleonasmo do amor generoso e altruísta que motiva e fortalece, tornando a vida mais leve, principalmente, nos tempos difíceis. “Dias atrás me peguei chorando feito criança durante uma oração de gratidão a Deus por todo o cuidado que ele tem comigo, e esse choro começou quando fui agradecer pela vida de Jessica.”

Diferente de tantos outros finais, o de Anderson Camilo foi diferente, houve cura. Ele nos conta que a luta não foi só sua e acreditamos que a sua vitória também não. Será de todos os Andersons, Josés, Mateus e tantos outros homens que ao conhecerem essa história vão escolher lutar contra a masculinidade frágil que tem medo de se auto examinar, que faz piada com urologista e que escolhe ficar na ignorância ao apreciar a vida. Essa história e vitória poderá inspirar muitos outros a escolherem lutar.

Produzido com intuito acadêmico e adaptado para a publicação. Pauta crucial da disciplina de Mídia Contra-Hegemônica, na UFRN.

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