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Cultura

“O filho de mil homens”, relações humanas em evidência

Laura Santos

Publicado

Foto: Laura Santos | Quando Nuvem

Não importa quanto tempo viveremos, nunca compreenderemos o amor em sua totalidade, nem o que ele muda de lugar dentro de nós. E a felicidade, resultado deste amor, será sempre uma incógnita da vida, porque o sentir ultrapassa todo o entendimento. “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, é um livro sobre esse tema inesgotável. Com personagens bem desenvolvidos, renova ainda nossas ideias de família, nos lembrando que vai muito além do sangue. Da construção que somos feitos pelo encontro de uns com os outros.

Crisóstomo, um pescador de 40 anos, dá início a história. Um homem sozinho, que muda de ares ao se deparar com um garoto órfão, chamado Camilo, a quem acolhe como filho, porque assim o sente. O menino, criado até então pelo avô, falecido recentemente, enxerga no novo pai um sentimento que parecia existir há tempos, em contraste com o pouco que lhes foi dado: o de pertencer. Para o pescador, a certeza é ainda maior: Camilo é o filho que ele esperou por longos anos, um filho que estava apenas separado de seu pai, aguardando o reencontro. Além desta dupla, conhecemos personagens mais densos nos apresentados aos poucos no decorrer das páginas.

As relações humanas são poeticamente trabalhadas na escrita do autor. Este foi um dos principais aspectos que me motivou a escolher sua obra como leitura. Não apenas o cotidiano e o simples são expostos de forma bela, como há um afago no peito pela delicadeza de sua escolha de palavras, mesmo quando estas nos acertam com força. Todas as situações envolvendo a pequena aldeia são questões com as quais a nossa sociedade sempre conviveu, isto aproxima ainda mais o texto do leitor.

Foto: Laura Santos | Quando Nuvem

Isaura, uma mulher cuja juventude foi perdida e a vida marcada para sempre por causa de um falso amor que gerou apenas sofrimento e desesperança, também faz parte do enredo. Mal vista pela família, acaba se casando por fachada com Antonino, homossexual, nunca compreendido pela mãe e que cresceu sendo desprezado por todos. Uma união entre dois que nunca conheceram a delicadeza genuína de outro ser humano.

Tudo muda quando Isaura e Crisóstomo se encontram. Já não bastasse ele ter sido mudado por seu filho, um sentimento nunca antes conhecido se revela ao vê-la. É desse emaranhado que constitui o mundo da narrativa. Cada pessoa que modifica a forma como a outra existe, de preferência, quando essa mudança é alívio, ternura e a boa sensação de estar inteiro, não por causa da presença em si, mas porque os sentimentos trazidos impedem a vida do lado de fora de nos quebrar mais um pouco. O amor é como uma barreira ao redor do coração.

Foto: Laura Santos | Quando Nuvem

“Todos nascemos de mil pais e de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se nossos mil pais e as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa para pessoa, que nunca estaremos sós.”

[Trecho retirado do livro]

Não somente estes, outros nomes surgem na obra, igualmente importantes para nos ensinar sobre a construção das relações. Somos cultivados pelo que nos forma. Ainda com reflexões sobre a violência perpassada culturalmente, principalmente pelo machismo, que obedece à lógica da brutalidade para lidar com o que não compreende. Vemos violência física e emocional que causam estragos dificilmente esquecidos. 

Foto: Laura Santos | Quando Nuvem

É uma obra para abraçar e ser abraçado. Foi meu primeiro contato com o autor e superou positivamente minhas expectativas. É também um caminho alternativo para preencher os dias com a sutileza que a poesia oferece, sempre certeira e necessária. 

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