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Sociedade

Stephanie Ribeiro: a ativista que ganha mais força nas redes sociais

Victória Alves

Publicado

Racismo, machismo e misoginia se unem para atacar a escritora que atua na disseminação do movimento negro e lutas de gênero em seus textos e plataformas

Foto: Arquivo Pessoal

Arquiteta e Urbanista de formação, podemos dizer que Stephanie Ribeiro, 27, é jornalista por vocação. Além de colunista na Marie Claire, ela é uma das vozes ativas em pautas raciais e de gênero nas redes sociais. Stephanie, em 2018, esteve entre os 11 brasileiros homenageados na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Sua contribuição em diversas publicações nacionais como feminista e ativista negra a incluiu na categoria “Humanismo e Religião” no prêmio MIPAD – Most Influential People of African Descent – que elege os afrodescendentes mais influentes do mundo. A paulista já publicou artigos na Revista Marie Claire, MdeMulher, Revista TPM, Vice, Revista Glamour, Huffpost Brasil, Archdaily, Plano Feminino e Blogueiras Negras.

Em 2015, a feminista negra interseccional recebeu homenagem da Assembleia Legislativa de São Paulo pelo ativismo em prol das mulheres negras. Na ocasião, Stephanie recebeu a Medalha Theodosina Ribeiro. Ainda nesse ano, Stephanie começou a ficar em evidência e seus artigos passaram a ser cada vez mais reconhecidos com suas pautas sempre necessárias sobre a vivência negra, empoderamento da mulher negra, machismo e violências de gênero.

Neste ano de 2020, o contexto mundial foi alterado com a pandemia do novo coronavírus que assombra toda a população. O crescente número de óbitos é alarmante, mas é chocante saber que muitos não conseguem cumprir o isolamento social. As pautas não se modificaram junto ao momento no qual estamos vivendo, entretanto, novas angústias assombram, sobretudo, os brasileiros. O “furo”, em massa, da quarentena significa que ainda não teremos a diminuição de infectados e, consequentemente, a diminuição de mortes no momento. É massivo e desgastante ter que lidar com uma pandemia, que já tirou mais de 50 mil vidas no Brasil, e ainda ter que lidar com a política ruindo junto à luta contra à violência racial e ondas neofascistas. No meio dessa degradante situação, temos que lidar com nossa saúde mental, nos isolarmos o máximo possível e recorrer ao afeto virtual com os entes queridos distantes.

Mesmo em quarentena, há mortes de pessoas negras, movimentos antidemocráticos e uma política de se questionar, mas uma coisa mudou: neste isolamento de mais de 70 dias, as redes sociais, por exemplo, foram intensificadas. E aí está o perigo. É através das redes sociais que grande parte dos brasileiros está passando a maior parte do tempo. Nesse sentido, ficou mais evidente o desconforto de boa parte dos internautas diante da facilidade de atingir alguém em plataformas digitais.

O linchamento virtual se tornou cada vez mais frequente e agressivo nas mídias, sobretudo, com mulheres e a população negra. Stephanie foi alvo de ofensas graves nas suas redes sociais durante e após o reality show Big Brother Brasil 20 e fala um pouco desse momento: “Eu realmente acredito que o fato de estarmos em casa, com medo, ansiosos e aflitos fez com que muitos projetassem esses sentimentos em outras pessoas. E as redes sociais não deixam de ser, hoje, uma das únicas formas de comunicação para além dos espaços que você está confinado”, afirma.

Stephanie ainda falou sobre o momento intenso no qual estamos vivendo: “Eu acho que o contexto atual evidente nas redes é um reflexo do contexto político em que a gente está inserido. Vivemos uma eleição em 2018 que teve um impacto muito grande nas minorias, pois, de alguma forma, legitimou-se o discurso de ódio e é evidente que as redes sociais estão sendo um reflexo disso. O país está vivendo um caos político, social e de saúde pública. Eu percebo que as pessoas, diante desse sentimento de desamparo social, estão agindo de uma forma muito mais violenta”, conclui.

Sobre as tentativas de desqualificação da mulher nos ataques racistas e misóginos recebidos, Stephanie fala: “Para mim, é muito complexo lidar com essas tentativas de desqualificação, ainda mais quando muitas vezes elas também partem de pessoas que eu me identifico, que pessoas negras e outras mulheres também. Eu acho que esse é o mais difícil de lidar. Quando se trata de homem, em especial homens brancos, eu sinto mais facilidade de lidar com isso. Percebo que são críticas que não necessariamente devo… críticas não. São muitas vezes desqualificações que eu não tenho que levar a sério. Mas quando se trata de pessoas que eu considero ou me identifico, eu fico um pouco mais preocupada, mas também tento entender a construção da narrativa, o que é uma crítica, de fato, ou o que é uma desqualificação”, diz.

Stephanie e seu cachorro, Basquiat. Foto: Arquivo Pessoal

A arquiteta e urbanista sente que é muito fácil as pessoas desqualificarem o seu trabalho e tratarem você com uma violência muito atípica quando é uma mulher negra. Não só nas redes sociais, mas também desqualificando toda a construção da sua narrativa e os impactos dela simplesmente porque, muitas vezes, as pessoas não lidam com a sua linguagem, com sua forma de fazer, com suas escolhas do campo privado. Ademais, Stephanie cita uma das críticas mais banais que já recebeu: “Eu já sofri críticas pela forma como eu trato meu cachorro, sabe? Isso mostra muito como a gente vive numa sociedade na qual as pessoas não naturalizam que mulheres e pessoas negras são pessoas. Toda vez que vai para o campo do subjetivo e de uma questão individual, eu vejo que sou muito desqualificada por coisas básicas e, sobretudo, de uma forma muito violenta”, enfatiza Stephanie.

Cancelamentos

O Elo Jornal está produzindo a série de artigos #DEScancelados, a qual se refere a uma sequência de textos produzidos com o intuito de promover a visibilidade das boas ações e qualidades de personalidades que – com a nova cultura de cancelamento – estão sofrendo linchamentos virtuais. Perpetuar a ação odiosa por meio da cultura do linchamento virtual causa danos psicológicos a qualquer pessoa e essa ação não tem o intuito de fazer uma crítica construtiva. Nós, do Elo, não compactuamos com a propagação de ódio gratuito.

Diante disso, conversamos com a Stephanie sobre a magnitude dos cancelamentos nas redes sociais e perguntamos se existe algum ponto positivo na “cultura do cancelamento”, a qual afeta diversas pessoas, inclusive a própria Stephanie, que diz não acreditar muito nessa ideia da cultura do cancelamento. “Eu não acredito numa cultura específica do cancelamento, mas sim do próprio uso que a gente faz da ferramenta. É essa a lógica. ‘Vamos falar muito do mesmo assunto’ e aí quando às vezes uma pessoa não gosta de uma coisa, de outra pessoa… No meu caso, aconteceu isso de uma pessoa falar que eu tinha dito algo e eu não tinha dito. E quando eu vi… várias pessoas estavam dizendo que eu tinha dito isso. Extremamente absurdo, porque ninguém foi atrás da informação, mas a lógica da repercussão feita na rede favorece que as pessoas não pensem, não pesquisem e não se apropriem da discussão. Elas não sabem nem do que estão falando, mas querem falar sobre. Então, a lógica de algumas redes sociais favorece essa dinâmica [da cultura do cancelamento]”, pontua.

A paulista ainda explica sobre o momento que mais ficou impressionada com as ofensas e ataques recebidos nas redes sociais. “Fiquei surpresa com relação aos ataques quando, por exemplo, fiz uma thread sobre algum assunto e a pessoa pegava apenas uma parte da minha fala, tirava um printscreen (captura de tela) e postava dizendo: ‘a Stephanie disse…’ e o que eu tinha dito era outra coisa. Foi o que mais me chocou. A irresponsabilidade e, até mesmo, uma motivação quase criminosa de você desvirtuar a fala do outro. Isso foi uma coisa que me assustou muito”, finaliza Stephanie.

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