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Sociedade

LUTO: Quando somos forçados a dizer adeus

Victória Alves

Publicado

É comum não lidar bem com perdas, sejam de familiares, amigos, ou pessoas em que passaram por um período tão breve em nossas vidas, mas a despedida nem sempre é escolha nossa

Chica Lopes. | Foto: Victória Z. Alves

Em 2019, exato um ano atrás, pude participar de uma das experiências mais significativas da minha vida, o que julguei naquele momento ser apenas no campo acadêmico-profissional, mas eu estava errada.  O projeto Trilhas Potiguares foi muito mais do que uma experiência avassaladora, conheci pessoas e lugares incríveis, mas quando a conheci… Senti algo diferente. Na última sexta-feira (3), recebi uma captura de tela que dizia que aquela senhora que tanto me cativou, havia entrado para as estatísticas entre mortes que podem ter sido ocasionadas pelo covid-19, ela passou um tempo internada em Natal, devido a um problema de saúde alguns dias antes. Francisca Medeiros Lopes, conhecida popularmente em São João do Sabugi como Chica Lopes, se foi. A artesã era referência local, certificada e reconhecida em 1998 pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura como figura de extrema colaboração para a educação e cultura da sua comunidade, pelos diversos anos de contribuição de manifestações folclóricas em suas peças e engrandecimento e resgate do acervo cultural municipal.

A equipe do Trilhas Potiguares estiveram mais de uma vez na residência de Chica. | Foto: Victória Z. Alves

Chica Lopes nos recebeu em sua residência e nos contou sua história, nos mostrou seu trabalho e falou de suas diversas dificuldades, seu olhar triste mostrava todas as suas inseguranças, e de certa forma, até infelicidade. Mas ela não era uma pessoa triste, ela nos falou sobre o que gostava de fazer quando mais nova, falou do seu antigo lar localizado na Paraíba, mas sobretudo, falou sobre todo o amor que tentava transmitir no seu trabalho que ficava exposto em uma sala de sua casinha, no centro de São João do Sabugi, onde residia sozinha. E foi sobre todos os sentimentos que ela carregava no peito que passamos ali horas a ouvindo atentamente. Eu, Victória, fui uma das que mais me senti afetada em conhecê-la, mas as meninas, que comigo estavam, não ficaram muito atrás. 

Boneca adquirida por trilheira, feita por Francisca. | Foto: Victória Z. Alves

Era com dor que ela nos falava repetidas vezes: “se eu parar de fazer [artesanato], eu morro!”, e pensando agora, ela tinha razão… Somos como máquinas e algumas coisas fazem nossas engrenagens persistirem a trabalhar. Mas é importante lembrar que todos nós estamos de passagem, e é por isso que temos que fazer o que nos faz bem, o que amamos de verdade. 

Em meio a tempos difíceis como esses que estamos vivendo, fico extremamente feliz de ter conhecido uma pessoa como Chica Lopes, que com sua humildade, dedicação e afeto, conquistava as pessoas em que a visitavam e levavam lembrancinhas, que foram feitas com muito amor por essa artesã que fez meu coração se aquecer com a simplicidade e carinho em que nos recebeu. Lembro-me de encarar o seu certificado de 98, em que citei em uma parte anterior desse mesmo texto, e ela então passou a explicar sua dificuldade de locomoção e esquecimento de algumas coisas, ocasionados pela idade e problemas de saúde.

Seu tom de voz era de descrença quando chegamos em sua casa, e foi de certa forma uma surpresa para nós, ela achava que estávamos brincando com ela, ela não acreditou quando dissemos que queríamos conhecê-la e conhecer mais sobre seu trabalho. Falamos que não queríamos incomodar-lhe, mas que ficaríamos até ela contar tudo, e foi assim que rimos e a ouvimos durante minutos, horas… Não sei ao certo quantas, pareceu tão breve, estávamos tão presas a Chica Lopes, que até descobrimos naquele dia que ela gostava muito de dançar quando podia, antes dos seus problemas de locomoção e como ela dizia para nós “quando era mais mocinha”. Mas não apenas isso, descobrimos que ela detestava fotos, se achava feia e que iriam rir da sua aparência, felizmente ela se sentiu mais à vontade para fotos no segundo dia em que estivemos com ela, em algumas ela quase sorriu, nos sentimos de certa forma, diferenciados. 

Essa foto significa muito para mim, Chica parecia feliz. | Foto: Arquivo Pessoal

A finalidade deste texto é lembrar de tudo o que dona Chica representava e que ainda representa, sua arte será sempre lembrada, tenho certeza. Gianotti Lucena, artista plástico sabugiense, firmou o compromisso, a arte de Chica não morre, vai para onde ele for. E eu acredito muito nisso. Mesmo que Chica tenha parado, sua arte é eterna, seja em lembrancinhas guardadas cheias de amor nos cômodos de nossas casas, seja a lembrança em nosso âmago. Chica está descansando, mas sua arte ainda está entre nós, e é isso que temos que guardar. 

Mensagens

Em março, 13 semanas atrás, estava eu através das redes sociais enviando-a uma mensagem, sonhando com a possibilidade dela receber, mesmo que de forma indireta por terceiros. Parte da publicação dizia assim: “Foi muito importante para mim conhecê-la, não apenas como uma -quase- jornalista, mas como pessoa. A senhora [Chica Lopes] me mostrou a importância da simplicidade e me fez notar amor nas pequenas coisas. E eu achava que já tinha esse olhar antes, mas erro meu.” E prossigo: “que São João valorize cada dia mais a sua arte! Que seus artesanatos sejam identificados como um pedacinho da senhora que transborda cuidado e afeto, como de fato é.” E era sobre sua arte com amor e vida que eu estava tentando falar, ainda há vida, pois ainda há arte em cada peça em que fora tocada e produzida por Chica Lopes. E é nesse amor às pequenas coisas que me apegarei, assim como Chica nos ensinou, de forma tão simples e tão breve. Devemos valorizar nossa arte e enxergamos amor na simplicidade, e amar… Sempre amar! 

Da esquerda, Bruna, Gabriella, Amanda e Mirella junto a Chica. | Foto: Arquivo Pessoal

E não poderíamos deixar de desejar forças para todos os parentes e amigos da Chica, a perda é sempre imensurável. Com isso, algumas pessoas de nossa equipe do ‘Trilhas Potiguares – São João do Sabugi’ resolveram deixar suas mensagens: 

“Lembrar de dona Chica é falar de amor, cuidado e arte. Ela que nos recebeu de braços abertos em sua casa e a cada história contada vinham ensinamentos que só quem desfrutou da vida pode dar. O amor transcendia Dona Chica e as poucas manhãs que passamos em sua companhia parecia que já tínhamos criado um laço de anos. Esse amor que ela exalava também na arte, se percebia o cuidado e afeto que ela depositava em cada, e que fazia que quem tivesse uma peça dessa exímia artesã também trouxesse um pouco dela para casa. Dona Chica deixará muita saudade e quem teve o privilégio de conhecê-la só levará boas memórias consigo. Descanse em paz e meus pêsames a todos e todas que sentem essa perda” diz Gabriella Macêdo, estudante de Psicologia e trilheira.

Lembrancinhas do padroeiro de S. J. do Sabugi produzidos por Chica. | Foto: Amanda Medeiros

“Guardo com carinho as suas palavras, seu jeito e sua arte, na minha caixa de lembranças e no meu coração! Meus sentimentos a todos da família e que Deus possa confortá-los”, Amanda Medeiros, estudante de Dança e trilheira.

Te conheci em um dia e você transformou a minha vida inteira

No seu olhar enxerguei vida e na sua história esperança. Sou eternamente grata!

Queria que o mundo te conhecesse assim como eu tive o inestimável prazer de conhecer e entender o real significado da palavra ‘amor’

Descanse em paz Dona Chica. És semente em meu coração que brota e se renova a cada dia!” enfatiza Bruna Vanessa, formada em Ecologia e trilheira.

Para ler a matéria de 2019 do Projeto Comtrilhas sobre Chica Lopes, clique aqui.

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