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Cultura

Frida: muito mais do que uma biografia

Laura Santos

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Foto: Laura Santos

Frida nasceu em 6 de julho de 1907. Se viva, estaria completando 113 anos. É verdade que por muito tempo foi mais conhecida por ser a esposa do famoso muralista Diego Rivera, mas sua fama pessoal se tornou tão grande quanto a de seu companheiro, possivelmente maior, assim como o reconhecimento pelo seu talento. Nos dias de hoje, caso alguém pergunte sobre o casal, é provável que ocorra o pensamento oposto ao anterior e a resposta seja: Diego Rivera, o esposo de Frida Kahlo. É a ela quem nos referenciamos diretamente, sua luz é natural e independe de outros nomes. De fato, não necessita de sobrenomes em excesso para reconhecê-la, ouvindo apenas um a reconheceremos.

Sua biografia, escrita por Hayden Herrera, se destaca para além dos relatos principais de sua vida. É um conjunto onde suas obras e sua história pessoal são cruzadas para revelar suas facetas mais profundas. Frida é a legítima expressão do conceito “a vida daria um filme”, pois mesmo em sua curta duração, morreu aos 47 anos, em abril de 1953, viveu intensamente seus dias e pintou intensamente o que havia em si, sem restrições. Marcada por tragédias desde a infância, transformou toda dor e sofrimento na mais pura expressão de arte, não teve filhos, mas fez de suas telas os seus.

Ainda criança, aos 6 anos, Frida foi diagnosticada com poliomielite, seu corpo foi marcado pela doença, assim como sua infância. Solitária na presença de outras crianças que zombavam de sua perna, as dores desta infância viriam a se tornar um tema recorrente em suas obras. Sua aparente fragilidade não esconderia a sua força física e interior. Mais tarde, na juventude, sofreu o acidente de ônibus que a fez usar colete em tantos momentos e por tanto tempo.

Foto: Laura Santos

A dor sempre esteve em sua vida. Neste trágico acidente, uma barra de ferro atravessou seu corpo. Um bonde acertou o ônibus onde ela estava, o impacto foi tão grande que arrancou as suas  roupas, algum dos passageiros carregava ouro em pó, Frida ficou nua, ensanguentada e coberta de ouro. O resto de sua vida foi marcado por acompanhamentos médicos e internações.

Diego era mais de 20 anos mais velho do que Frida, teve inúmeros relacionamentos e mais de um casamento, em nenhum deles deixou de ter amantes. Já haviam se cruzado em algum momento, pois ele pintou um mural na escola preparatória em que ela estudou. Mas seu encontro definitivo aconteceu quando Frida, com todo seu ímpeto, pediu a opinião dele sobre as suas pinturas, opinião profissional, pois se esta fosse negativa ela não se daria ao trabalho de continuar pintando e arranjaria um emprego comum. Diego se encantou por seus traços, em todos os sentidos, poucos meses depois engataram um namoro.

O relacionamento deles nunca foi calmo, ele teve muitas amantes. Frida chegou a dizer que sofreu dois grandes acidentes em sua vida, o primeiro foi o do ônibus, o segundo foi Diego. Ela também, colecionou namoros e se relacionou com homens e mulheres. No entanto, Diego não aceitava os casos que ela tinha com outros homens, seria capaz de matá-los se descobrisse algum. Por outro lado, não fazia objeção nenhuma aos seus encontros com outras mulheres. Embora possa ter sido desconfortável para Frida dividir Diego com outras, talvez, suas próprias traições tenham sido caprichos para lidar com essa realidade, o pior dos abalos foi descobrir o caso que ele teve com sua irmã mais nova, Cristina. 

Foto: Laura Santos

A arte de Diego tinha uma expressão política muito forte, ele era filiado ao Partido Comunista do México, até ser expulso (por ele mesmo que era presidente na época) por pressão de seus colegas que achavam hipócrita da parte dele ser remunerado pelos homens mais ricos do mundo para pintar seus murais. Diego considerava que o importante era fazer a revolução acontecer e sua arte era revolucionária, então não ligava muito de viver entre a elite com esse objetivo.

O que ninguém suspeitava é que futuramente o casal hospedaria, em seu lar no México, um dos maiores símbolos comunistas do mundo, Trotsky, em carne e osso. Frida teve um caso com ele, era seu herói, mas além disso, era herói de Diego. Além do desejo e admiração, foi movida por um pouco de vingança. Trair a Diego com seu herói era igualável ao sentimento de ter sido traída por ele com a sua irmã.

A densa vida de Kahlo e seu sofrimento também ganharam novos ares, mais terríveis, com seus abortos. Seu grande sonho era ter sido mãe, nunca conseguiu realizar, toda gravidez que teve se encerrou com um aborto, e mais de uma vez a morte a encarou de frente. Outro golpe foi o falecimento de sua mãe, pouco depois de perder seu próprio filho, precisou lidar com um luto bruto. Morte e vida estão sempre presentes em suas pinturas.

Viveu com Diego nos Estados Unidos, quando ele foi contratado para, em mais de um momento, pintar murais lá. Conheceu grandes nomes como Rockefeller, com quem conviveu de perto. Porém Frida sempre gostou muito mais de seu país, o México. Se cansava rapidamente de morar na “Gringolândia” e implorava ao marido que eles voltassem logo para a sua nação de origem. Diego por outro lado não queria voltar, embora tenha viajado de volta, sempre culpou Frida pelo seu desgosto, inclusive o relacionamento com Cristina aconteceu após esse episódio, que provavelmente foi o símbolo de sua raiva por ter regressado.

Foto: Laura Santos

Não foi Frida quem caracterizou sua arte como surrealista, outros o fizeram. André Breton, artista francês, foi um dos nomes responsáveis por levar as telas dela em exposições para fora do México. Frida contou ainda com a ajuda de Marcel Duchamp, foi elogiada por Picasso e muitos ícones do surrealismo. 

Nunca assumiu de fato o selo, afirmou: “pensavam que eu era surrealista. Mas não sou. Eu nunca pintei sonhos. Eu pintei a minha própria realidade”. Lendo a sua biografia é realmente possível encontrar o particular de sua existência transposto nessa aparente imagem surreal. Frida tinha uma personalidade única. Suas cores eram a própria representação da mexicanidade em que acreditava, amava a história nativa do México. Se orgulhava do sangue latino correndo em suas veias, embora também tivesse sangue europeu herdado de seu pai.

As cartas e relatos de amigos, além dos escritos de seu diário, mostram a admiração e o feitiço que a simples presença de Frida despertava no ambiente. Diego tinha orgulho da artista que ela era, assim como ela tinha dele. Nesse ponto, ambos se apoiavam mutuamente e sem amarras, cresciam como artistas graças ao estímulo um do outro. Por muito tempo Diego sempre afirmou que sua arte vinha em primeiro lugar, Frida sempre o respeitou por isso. Em qualidade, é possível que o tenha ultrapassado. 

Foto: Laura Santos

O que seus quadros têm de inquietante pode ser encontrado em sua vida. Frida viveu sabendo que a morte estava sempre a sua espreita, sua intensidade pode ter sido, entre tantos, por esse motivo. Se hoje é uma artista icônica, é porque muito antes foi uma mulher icônica, sua personalidade e pensamento antecedem suas telas. Dizia o que vinha à cabeça, criticava o que considerava chato e sem graça, não se importando se era um clássico. Frida capturava rapidamente o mundo e as pessoas ao seu redor e é este mundo que ela nos oferece através de suas imagens.

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Este texto é uma parceria com a Quando Nuvem

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