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Esporte

Um mundo de muros altos e sonhos ruins

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(Foto: UOL / Reprodução)

Domingo. Sete e meia da manhã. Acorda agitado. Parecia um sonho ruim, mas que não recorda e por isso não pode chamar de pesadelo.

A vontade é de voltar pra cama e dormir mais um tanto para descontar o sono atrasado da semana dura de trabalho na fábrica. Sabe, porém, que deitar apenas vai o deixar mais cansado porque os olhos não vão pregar sabendo que o dia já é claro lá fora.

Abre a janela e dá de cara com o mundo, que por ali, é o muro da dona Teresa. A velha subiu quatro fileiras de bloco e tapou o sol.

A rua chama, é lá que está o sol, as pessoas e a vida. Longe do muro é que o mundo acontece. Passa uma água no rosto, veste uma bermuda e joga a camisa do time de coração no ombro. Não sabe como vai ser o dia, mas sabe que uma oração, um beijo na mãe e a camisa do Palestra são artigos indispensáveis para qualquer dia.

Antes de sair, um café puro e sem açúcar, mas com afeto da mãe. Ganha a rua e vai em busca do desconhecido. Antes, no final da rua de casa, cumprimenta o Seu Joaquim, que logo puxa assunto: “e esse time, hein?! Com três volantes não vai ganhar nada”.

Concorda intuitivamente e agradece mentalmente “pelo menos não falou do tempo. O velho é gente fina!”. Segue seu caminho. Mais dois quarteirões de rostos familiares, uma esquina à esquerda com a criançada já iniciando a algazarra do domingão e pronto, está na avenida onde passam os ônibus. Logo aponta um que faz a linha pro centro e ele entra.

Salta no precipício da metrópole sem medo do que lhe pode acontecer, sabe que na pior das hipóteses apenas troca de lado nas estatísticas frias e sem rosto do Estado.

Perambula sem rumo até se dar conta que já são onze e meia. O sol arde o topo da cabeça e o café amargo já fora consumido pelo organismo. Resta o afeto da mãe, que enfiou 20 conto no bolso da bermuda. Dá pra almoçar uma quentinha e com mais uns trocados que o final do mês ainda não levou dá até pra tomar umas duas cervejas.

A parada para o rango serviu para pensar no muro da velha Teresa. Ela devia ter suas razões — pensou. Talvez o pixadinho que os filhos da dona da casa fizeram para os almoços de domingo. Quando eram crianças — lembrou — nem muro havia e as famílias se entrelaçavam. Tentou lembrar e não conseguiu, quando tudo mudou, quando o muro passou a existir, quando subiu e quando bloqueou o sol.

A memória falhou, pudera, buscou nos flashes de lembranças quando havia conversado com aqueles que cresceu chamando de “primo”. Era inútil, muita coisa mudou, principalmente as pessoas e quando isso acontece a memória se adequa pra não deixar doer o que faz mal.

Seguiu. Na imensidão da selva de pedra, mais uma vez percebeu que estava só.

Sem shopping, sem cinema, sem sossego. Tem consciência de como ficou à margem da sociedade, mas se mantém firme no propósito de que não pode se render e cumprir o destino de sua própria marginalização.

O emprego que só faz sugar sua força de trabalho, e que quando não encontrar mais jovialidade vai cuspi-lo como bagaço, é cruel, mas ainda lhe paga as contas. Não ter ingressado no mecanismo de consumo, o fez anônimo, mais um sem rosto na multidão. Ao menos lhe restou uma pontinha de ironia para admitir que a culpa foi somente dele, que não se esforçou mais e deixou de aproveitar as benesses da meritocracia.

Ri do próprio pensamento enquanto um carro importado para no farol em que ele aguarda para atravessar a rua sem destino.

Mais alguns instantes à deriva e de repente, a duas quadras, nota uma aglomeração. É uma massa de gente vestindo verde. Mesmo inconscientemente seus pés o guiaram até às proximidades do estádio do seu time.

Não tem ideia de datas de jogos, abandonou a cobertura esportiva quando a fábrica o fez abandonar sua humanidade, do goleiro ao centroavante não conhece nenhum rosto. Colocação na tabela? Nem sabe que campeonato disputa. Agora, graças ao encontro de mais cedo com Seu Joaquim, ao menos sabe que algum retranqueiro dirige o time e pensou: “puta que o pariu, três volantes é pra matar de raiva”.

Mesmo distante do clube e de si próprio durante tanto tempo, percebeu que o sobressalto causado pelos famigerados três volantes, era a prova que ainda havia algo ali dentro. Ainda que as únicas coisas que restassem fossem o escudo, o hino e o amor pelo verde.

Passou a mão no bolso e não sobrou mais do que 10 reais. Da última vez que colou no estádio, isso pagava pelo menos a meia entrada que com sorte conseguiria. Olhou pro alto e concluiu que a sorte o abandonara, pois da última vez que ali esteve, o estádio não parecia um prédio desses de gente rica.

Na última vez, o número 1840 da Turiassu era o concretão, com cadeiras para os playboy e cobertura só para quem tinha muita grana e mandava no Verdão. Nunca pôde e nunca quis cadeira, afinal é mantra de torcedor dizer que “vai de arquibancada pra sentir mais emoção”.

Agora — ergueu a cabeça e olhou mais uma vez pra’quilo — um monte de metal brilhando, tudo fechado, nenhum pedacinho de grama à vista da rua. Se perguntou: será que pelo menos o sol entra aí para a grama crescer?

Tomou coragem e foi à bilheteria perguntar quanto custava para entrar. O não já tinha, pensou. A moça do colete laranja logo perguntou se era sócio. Pensou em responder que sempre foi. Nas vitórias e derrotas esteve junto, amou o time, na adolescência até de caravana participou, aguentou gozação quando caiu, vibrou, rezou, torceu e até fez promessa por dias melhores. Que sociedade poderia ser melhor?

Olhou bem pra cara da moça que segurava um tablet e entendeu que o papo ali não era de amor, mas de dinheiro. Não interessava o que cada um levava no peito, mas quanto cada um carregava na carteira.

Respondeu que não era sócio mesmo contrariado, pois sabia que mais palmeirense que ele era difícil encontrar. A moça o orientou a acessar o site e comprar o ingresso pela internet porque dali em diante sem ingresso não poderia passar.

Quis insistir — ora se seus pés lhe guiaram Deus sabe de onde até lá, era por uma causa justa. Quando dois policiais se aproximaram, entendeu que não era lugar para ele. Mais uma vez seria posto de lado, dessa vez, porém, quem lhe virava a cara era o próprio time.

Uma dor na alma, como tantas vezes sentiu o Palmeiras com a alma. Na arquibancada ou até pelo radinho nas partidas mais desesperadoras, provas que o que os olhos não veem, o coração sente sim e bate descompassado numa disritmia clubística.

Ainda aéreo pelo desprezo de quem tanto amou, foi pego pelo braço. Um chacoalhão que lhe trouxe de volta ao mundo real. Instintivamente se preparou para reagir, um soco e um pique lhe salvariam de maiores problemas, mas quando retomou a vista e a audição, percebeu que eram desconhecidos chamando: “vem com a gente”.

Mais uma vez foram as pernas decidiram por ele e lhe carregaram.

Três quadras depois entraram à esquerda. Nova aglomeração, dessa vez muito mais receptiva. Uma portinha simples com um balcão lá dentro, uma TV virada para o lado de fora, o povo na calçada num pedacinho de rua. Um clássico boteco. O jogo ia começar.

Logo lhe estenderam um copo de cerveja, alguém puxou o grito e todos prontamente acompanharam: “ô, vamo ganhar Porco-ô”. E ele entendeu que a arquibancada agora era ali, do lado de fora, longe do novíssimo estádio.

Novamente se questionou: “se o grito e a energia da nossa gente estão aqui, quem está lá dentro?”. Olhou para a TV e entendeu que ninguém estava lá, o estádio, apesar de cheio, estava vazio de sentimento, as pessoas não incendiavam o time e no gramado, os jogadores demonstravam a vontade de moribundos.

Quando a transmissão mostrava as confortáveis cadeiras que cobriam 100% dos espaços do estádio, o que ele via era um monte de gente sentada, pareciam estar num teatro de tão comportadas, aliás, inertes e alienadas fazendo qualquer coisa no telefone que não fosse jogar junto.

Era um Palmeiras sintético, resmungou consigo em voz alta. No meio da bagunça, sem ouvir direito, o cara ao seu lado respondeu: “é uma bosta mesmo essa grama sintética”.

Espantado com a informação, havia respondido sua primeira questão e entendido tudo que não conseguira assimilar: “até a grama era sintética”.

Quando a dona Teresa subiu quatro fileiras de bloco no muro que divide suas casas, tirou o sol da manhã de seu quarto e o mofo pintou as paredes do cômodo. O Palmeiras fez a mesma coisa e atraiu o bolor para dentro do clube.

Com torcida e grama sintética, com o cerco em frente ao estádio e ao expulsar quem sempre esteve perto, um apartheid foi imposto e um eclipse levou à escuridão que mata tudo, até a grama.

A segregação e o desprezo asfixiam o amor e sem esse sentimento nem todo o dinheiro do apático novo público pode manter de pé o Palmeiras.

Ao final do jogo, no caminho de volta, cruzou a antiga Turiassu, a mesma rua onde lhe fora negado o acesso horas antes. Não havia mais as barreiras, tampouco bandeiras, apenas gente entrando no estacionamento do shopping para buscar seus carros, e que estampavam nos semblantes que pouco se importavam com o que havia acontecido no gramado.

Pegou o primeiro busão e foi embora pensando que apesar de ser posto de lado pelo clube que amava, era mais livre e honesto do qualquer um daqueles que iam ao estádio para fazer selfie.

Não era rancor, era tristeza.

Há tempos não ia até o estádio e entendeu que talvez não voltaria, pois não tem lugar para ele no novo gramado.

No próximo domingo, ficar na quebrada seria o melhor negócio. Mesmo que sonhos ruins o despertassem, seriam melhores do que o desprezo cruel do pesadelo que se tornou o próprio time.

(Foto: Flávio Florido / UOL / Reprodução)

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