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Opinião

Nada será como antes

Anna Luiza de Paula

Publicado

O vírus que nos aflige foi transmitido à humanidade por quais animais silvestres? Pelas cobras? Pelos morcegos? E o sequenciamento genético da Covid-19? E a vacina? E a eficácia da hidroxicloroquina? E a quarentena? Quando irá acabar? E a nossa vida? E o futuro?

Somos aptos a questionar e destreinados a esperar. Nos tornamos uma espécie de adultos mimados e egocêntricos com a certeza de que: 1° – para toda pergunta há uma resposta, o que é uma falácia; 2º – as nossas proposições devem ser solucionadas ao nosso tempo e da nossa forma. 

Nos enganamos propositalmente de que éramos oniscientes e onipotentes. Tivemos a mais plena convicção de que controlamos de forma infalível a nossa vida e que tínhamos o mundo em nossas mãos. 

Pera aí. Somos adultos. Deveríamos saber que quando temos um conceito absoluto ou uma certeza infalível, é sinal de que estamos sendo traídos pela nossa prepotência e arrogância porque, na verdade, nenhum conceito é absoluto e nenhuma certeza é infalível. 

“Somos adultos e deveríamos saber.” Não necessariamente. Percebi que coloquei um fardo pesado demais em você, leitor, e em mim também. Adultos não estão prontos, remendados e esculpidos rumo à zerar as imperfeições.

 Adultos não são protótipos de perfeição pela simples razão de que a beleza da nossa passagem por aqui está em caminharmos na rota destinada a nos conhecermos melhor e acessarmos as nossas profundezas.

A nossa passagem por aqui é pautada em uma utopia, com o único objetivo de que não deixemos de caminhar, de evoluir e de crescer. A perfeição é chata e sem graça. A perfeição significa que chegamos lá – lugar que desconheço. E o chegar lá perde a graça. A beleza é o caminhar. E estamos aqui para isso.

O que importa é estarmos dispostos a aprender. A ouvir. A entender. A aceitar a nossa vulnerabilidade. A nossa completa falta de controle de fatores externos muito maiores do que possamos imaginar. E isso o Coronavírus nos ensinou. 

Tem sido difícil, árduo. Somos gregários e precisamos de contato físico. Dói não poder abraçar quem amamos. Dói não ter a rotina na sua normalidade. Dói a obrigatoriedade de ficar em casa. Dói em mim. Dói em você. Dói em todos. Nosso humor oscila. O medo vem. A angústia também. Vez ou outra respiramos e percebemos que estamos sobrevivendo; que por maior que seja a tempestade, vamos nos mantendo – firmes ou não, tristes ou não, com traumas ou não. Mas estamos aqui a postos. 

A pandemia tem nos mostrado como é difícil ficarmos a sós conosco e o quanto o barulho exterior é uma boa escapatória para não lidarmos com a nossa ansiedade, medo, angústia e felicidade. Agora aprendemos que não temos saída: precisamos enfrentá-los frontalmente, afinal, o velho Freud já dizia que não adianta evitarmos as nossas emoções, já que se não lidarmos com elas, elas voltam piores e mais feias no futuro. 

A dor nos ensina tanto, basta estarmos dispostos. Adianto que o verbo principal da dor é “doer”, portanto, não tenha medo. Se jogue. 

O corona precisa ter nos despertado para uma nova era. Desejo que seja o fim do velho mundo e início do tempo em que estejamos sempre no processo de reconexão conosco, com o outro, com o mundo. 

A Covid-19 está nos mostrando na pele o que Heráclito já dizia: a vida é tão efêmera que ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Para um bom entendedor, isso basta. 

Foto cedida: Arquivo pessoal (Obs.: antes da pandemia)

Nota: agradeço profundamente a todos os profissionais enquadrados na categoria de serviços essenciais. Sem vocês o caos estaria muito maior. O valor do trabalho de cada um é inestimável. Obrigada! E quando puderem, FIQUEM EM CASA!! 

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