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Opinião

Vidas frívolas são incumbências de tempos efêmeros

Felipe Salustino

Publicado

Reprodução: Internet

Às quatro e meia da manhã o despertador grita ao pé do ouvido. Ainda tropeço na sofreguidão de um sono abruptamente interrompido por aquele grito lancinante, que pareceu me romper os tímpanos. Mesmo assim, preciso tomar apressadamente um café preto, amargo e forte, trocar de roupa, arrumar a mochila e sair às pressas.

Na rua, olho o céu e vejo que o sol me espreita a leste, por trás de uma nuvem densa e escura. A oeste, a lua resiste tímida e miúda na imensidão do infinito que parece ignorar sua presença. Num instante fugaz, os dois se exibem simultaneamente na vastidão da abóbada celeste.

O ônibus se aproxima enquanto meu rosto se reconfigura depois de um bocejo apressado. O motorista, de semblante sisudo, ignora meu bom dia de todos os dias. Tenho a sorte de conseguir o último assento disponível. Dali até o trabalho serão alguns quilômetros de introspecções lacônicas e flerte com o que resta da minha sobriedade.

Lá fora, a desordem toma conta. Filas enormes de carros quase vazios, os quais têm como única companhia pessoas quase sempre vazias. Do lado de cá, observo passageiros distraídos ao celular. Uma mulher, indiferente ao tempo, se debruça a esmiuçar um livreto de palavras cruzadas.

Já é novembro. Tudo é tão volátil e ao mesmo tempo tão óbvio. Já me perguntei várias vezes por que o caos ainda não se instalou. Tem tanta coisa acontecendo por aí e nós estamos todos calados, inertes e reféns do nosso próprio ego. Por que paramos de observar o universo em movimento?

Será que se eu pensar um pouco mais, vou chegar à conclusão de que o caos já se instalou? Se é assim, por que continuamos calados? De repente, uma epifania ecoa aos ouvidos: quando o caos se instala, ainda que o exterior silencie, o interior grita.

Estamos todos assim, vociferando por dentro, enquanto nos limitamos a olhares furtivos e expressões supérfluas. Somos o exílio de nós mesmos. Quiçá sejamos frios, frívolos, efêmeros como o tempo. Gostamos de gastar a vida com friezas e frivolidades. Não somos mais toque. Não temos mais sorte. Morremos no limbo de uma vida que pulsa todo dia no vai e vem dos carros.

De súbito, volto a inferir: tudo é tão óbvio. E por que não pensamos sobre isso? Uma vez, li em algum lugar que obviedades são coisas sobre as quais não estamos adaptados a pensar. O óbvio mitiga nossas sensações a ponto de reduzir a alquimia dos nossos desejos à condição de ócio sem precedentes.

Fazemos uma porção de coisas e ao mesmo tempo sentimos como se não estivéssemos fazendo absolutamente nada. Não existe elixir capaz de conferir sabor ao apetite humano. E a gênese de tudo isso parece estar guardada no invólucro embrionário de nossas vaidades.

Assim, nos tornamos tal qual o Cérbero, algozes, só que de nossas próprias virtudes. Não queremos mais dogmas entre nós, embora todos saibamos que a azáfama dos nossos dias nos levará ao colapso.

Depois de tanta repulsa, sinto necessidade de pensar o contrário. Ainda resta algum tempo até chegar ao trabalho.

Por que não buscamos uma vida mais calma? Faria um bem danado à alma. Poderíamos confiar um pouco mais no tempo e transformá-lo em nosso aliado. Vamos viver nossas glórias sem pudor. Isso é primordial à sobrevivência humana.

Na contramão das minhas reflexões, o ônibus segue agora mais rápido. Já não há mais trânsito nessa parte da cidade.

“Não se preocupe com a noite, porque o sol se põe até no mais romanesco dos dias. Cedo ou tarde, tudo acaba”. A frase, acenando para mim em meio à pichação de um muro em ruínas me soou como confissão de culpa. Alguém foi traído pela inércia de uma vida infinitamente caduca.

Seria o prelúdio de uma guerra contra as nossas banalidades? Será que finalmente vamos aprender a ligar para o outro e dizer: estou sentindo sua falta. Quero te ver logo!?

Parece pouco, mas há quanto tempo não fazemos isso?

Paradoxalmente, o idílio é aqui. Então, por que transformamos tudo num campo de batalha? Que tal voar ao invés de correr? Já percebeu que do alto enxergamos tudo de um ângulo diferente? E quando você corre, o que você vê?

Estou me aproximando do trabalho. As reflexões ficarão para trás junto com as derradeiras e constantes interrogações. Sobre estas últimas, te faço um convite: vamos pensar um pouquinho sobre elas? Até breve! Nos vemos por aí.

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